Kleber Mendonça Filho não é estranho ao domínio do cinema brasileiro. Seus longas mais recentes — Retratos Fantasmas, Bacurau e Aquarius — tornaram-se sucessos de crítica e consolidaram seu nome como sinônimo de qualidade no cinema nacional. Em 2025, o cineasta promete ir além das fronteiras do Brasil com seu novo projeto, vencedor de três prêmios em Cannes: O Agente Secreto.
Ambientado durante o governo de Ernesto Geisel, o longa acompanha Marcelo, que decide fugir de seu passado misterioso mudando-se de São Paulo para Recife na esperança de recomeçar a vida junto de outros fugitivos sob o olhar de Sebastiana. Contudo, sua chegada à capital pernambucana coincide com o Carnaval e uma descoberta incomum em um tubarão. O Refugiado rapidamente percebe que atraiu para si atenção indesejada… e vai precisar dar um jeito de fugir antes que seja tarde demais
Assim como em Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto revisita um capítulo crucial da história recente do Brasil, mas o faz de maneira singular: enquanto Walter Salles optou por um drama histórico, Mendonça constrói um thriller político, onde a sombra revela mais que a luz. O filme equilibra tensão e humor negro, transformando situações absurdas em fonte de riso desconfortável, tanto para os personagens quanto para o público.
Misturando gêneros e explorando formas pouco convencionais de retratar o regime militar, Mendonça banaliza o imoral — seja o desejo, seja a violência — em uma crítica mordaz a uma sociedade individualista e levemente distópica. Ao mesmo tempo, resgata um sentimento de comunidade e camaradagem em meio à crise, sugerindo que o caos pode ser um catalisador para a união.
O diretor não se esquiva de simbolismos: a recorrência de tubarões — ecoando o clássico de Spielberg — reforça a tensão entre predador e presa. Já os retratos oficiais do presidente Geisel espalhados por diferentes cenários evocam a sensação de vigilância totalitária, reminiscente de 1984 e seu Grande Irmão. Os moradores de Recife de 1977 são caricatos, mas Mendonça utiliza esses exageros de forma carnavalesca, criando um contraste vibrante e singular.
No elenco, Wagner Moura entrega uma atuação contida e emocional, encarnando um homem preso ao passado e à incerteza sobre o futuro. Ao seu lado, Maria Fernanda Cândido dá vida à revolucionária Elsa, voz da razão e do impulso transformador da narrativa, enquanto Tânia Mara brilha como a espirituosa Sebastiana, trazendo leveza ao enredo. O time é completado por nomes como Carlos Francisco, Robério Diógenes, Roney Villela e Gabriel Leone, que fortalecem o retrato coletivo da época.
Com O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho reafirma seu talento para unir o político e o pessoal, o real e o simbólico. Mais do que revisitar o passado, o filme funciona como um espelho distorcido para o presente, desafiando o espectador a rir, se inquietar e refletir sobre a persistência de estruturas de poder e vigilância em tempos de aparente liberdade. Seu tom mais abstrato do que ‘Ainda Estou Aqui’ pode destoar audiencias que só agora começaram a desbravar o cinema brasileiro , mas a maneira que ele une tudo em uma limha coesa e gutural promete ir longe…
… para o Oscar, Talvez?

