Quando ‘Bugonia‘, de Yorgos Lanthimos, foi ovacionado no Festival de Veneza, muitos veículos de imprensa passaram a chamar Emma Stone de a “Katharine Hepburn de sua geração”, em referência ao modo como a atriz se tornou um ímã de prêmios, prestígio e credibilidade artística. No entanto, há outra diva da Era de Ouro de Hollywood que parece dialogar de forma ainda mais precisa com a trajetória de Stone: a inigualável Bette Davis. Atriz reconhecidamente difícil, mas também uma mulher de força rara, Davis foi um dos talentos mais camaleônicos de Hollywood clássica e, hoje, é amplamente considerada uma das maiores intérpretes de todos os tempos.
Bette Davis — ou melhor, Ruth Elizabeth Davis — nasceu em 5 de abril de 1908, filha de pais protestantes. Após o divórcio dos pais, quando tinha apenas sete anos, ela e a irmã passaram a ser criadas pela mãe em condições financeiras mais modestas. Desde cedo, Davis demonstrou interesse pelas artes dramáticas e decidiu estudar atuação em Nova York, nos anos finais do que ficaria conhecido como os Loucos Anos 20. Essa formação moldou uma atriz que jamais se contentaria com a superficialidade ou com a mera adequação aos padrões de beleza vigentes. Sua estreia no cinema ocorreu em 1931, após assinar contrato com a Universal Pictures, mas os primeiros anos foram marcados por papéis pouco expressivos. A virada aconteceu em 1932, quando foi contratada pela Warner Bros. A partir daí, Davis começou a construir uma reputação como uma atriz ousada, intensa e tecnicamente impecável, disposta a assumir riscos que muitas de suas contemporâneas evitavam.
O primeiro grande impacto veio em 1934, com ‘Of Human Bondage’, no qual interpretou uma mulher cruel, manipuladora e profundamente antipática. A atuação lhe rendeu aclamação crítica e uma indicação ao Oscar, mesmo sem apoio inicial do estúdio. O filme foi a oportunidade que Davis precisava para se provar: ela abandonou qualquer vaidade e expôs emoções cruas, sem medo do julgamento do público. A partir desse momento, consolidou-se como uma atriz de personagens complexos e desafiadores, realizando verdadeiras transformações físicas e emocionais para viver seus papéis.
Em 1935, Davis venceu seu primeiro Oscar de Melhor Atriz por ‘Dangerous’, firmando-se como um dos principais nomes da década, ao lado de Joan Crawford e Greta Garbo. A consagração definitiva, porém, veio em 1938, com ‘Jezebel’, no qual interpretou uma jovem sulista orgulhosa e indomável. O papel lhe garantiu seu segundo Oscar e um lugar definitivo no panteão de Hollywood. Como muitas atrizes do período, Davis sonhou em interpretar Scarlett O’Hara em ‘E o Vento Levou’, embora já tivesse vivido uma personagem de espírito semelhante no filme de 1938.
Nos anos seguintes, Bette Davis tornou-se o grande rosto feminino da Warner Bros., estrelando produções que exploravam sua intensidade dramática e presença magnética. Filmes como ‘Dark Victory’ , ‘The Little Foxes’ e ‘Now, Voyager’ estão entre seus trabalhos mais celebrados e lhe renderam indicações consecutivas ao Oscar, onde ao todo teve 12 indicações. Nesse período, Davis também travou batalhas históricas contra os estúdios em defesa de maior controle criativo sobre seus papéis — uma atitude raríssima para atrizes da época. Em 1936, ela processou a Warner Bros. na tentativa de se libertar de um contrato que considerava limitador de seu potencial artístico. Embora tenha perdido o caso, o episódio consolidou sua imagem como uma artista que se recusava a se submeter passivamente às engrenagens de Hollywood. Em 1941, por dois meses, Davis tornou-se a primeira mulher a presidir a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, um marco simbólico de sua influência na indústria.
Após a Segunda Guerra Mundial, Davis manteve-se como figura central do cinema americano, embora a qualidade dos papéis começasse a declinar à medida que envelhecia — um destino comum às atrizes do sistema de estúdios. Ainda assim, protagonizou um retorno triunfal em 1950 com ‘All About Eve‘ no papel de Margo Channing, uma estrela de teatro madura, espirituosa e vulnerável. A atuação lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar, disputado naquele ano com Gloria Swanson, de ‘Sunset Boulevard’, e permanece como um de seus trabalhos mais icônicos.
Na década de 1960, já na meia-idade, Davis reinventou novamente sua carreira ao interpretar Baby Jane Hudson em ‘What Ever Happened to Baby Jane?’ , ao lado de Joan Crawford. O filme foi um enorme sucesso e lhe garantiu mais uma indicação ao Oscar. A suposta rivalidade entre Davis e Crawford — dentro e fora do set — tornou-se lendária, alimentando livros, documentários e séries ao longo das décadas seguintes. Nesse período, Davis tornou-se um dos rostos mais emblemáticos do chamado ‘hagxploitation’, subgênero do terror que explorava personagens decadentes e perturbadores interpretados por atrizes maduras. Longe de diminuir seu prestígio, esses papéis reforçaram sua disposição em desafiar convenções e explorar zonas desconfortáveis da experiência humana, embora colunistas de fofocas clamassem que os papeis de Davis eram um ‘pedido de socorro’. Nos anos 1970 e 1980, Davis passou a atuar com mais frequência na televisão e em papéis coadjuvantes, mas sua carreira continuou marcada por desempenhos memoráveis. Em 1977, tornou-se a primeira mulher a receber o AFI Life Achievement Award, reconhecimento máximo de sua contribuição ao cinema americano. Em 1980, publicou sua autobiografia,
Os últimos anos de vida foram marcados por graves problemas de saúde, incluindo um derrame em 1983, que afetou sua mobilidade e capacidade de atuação. Ainda assim, Davis manteve-se ativa, fazendo aparições públicas e confrontando seu próprio legado, além de cultivar rivalidades notórias, como seu declarado desprezo por Faye Dunaway. Seu último filme foi ‘Wicked Stepmother’, no qual interpretava uma madrasta bruxa (tanto no sentido literal quanto figurativo); a experiência foi tão conflituosa que Davis abandonou a produção antes do fim, levando a mudanças significativas no roteiro. Conhecida como uma das maiores fumantes de Hollywood, Bette Davis nunca abandonou o cigarro. Ela faleceu em 1989, vítima de câncer de mama, em Neuilly-sur-Seine, na França, pouco depois de participar do Festival de Cinema de San Sebastián. Sua personalidade feroz, seu perfeccionismo e sua franqueza a tornaram, ao mesmo tempo, respeitada e temida na indústria.
Celebrada por sua capacidade de dar profundidade e fascínio a personagens sombrios, difíceis e frequentemente antipáticos, Bette Davis foi uma pioneira na luta pelo controle criativo de sua própria carreira. Com uma trajetória artística brilhante e uma vida pessoal tumultuada, ela permanece como uma das figuras mais complexas, influentes e estudadas da história do cinema

