Quando Hollywood planejou adaptar o sucesso de Margaret Mitchell, ‘E o Vento Levou“, todas as Damas e Divas da época lutaram com unhas e dentes pelo papel de Scarlett O’Hara, uma beldade sulista completamente inflexivel. Nomes como Bette Davis e Tallulah Bankhead fizeram testes, mas foi para Vivien Leigh que o papel ficou. Leigh, talvez um dos nomes mais célebres da Hollywood Clássica, teve uma carreira e vida pessoal cheia de altos e baixos

Nascida como Vivian Mary Hartley, em 5 de novembro de 1913, na então Índia Britânica, Leigh era Filha de um corretor britânico e  foi enviada ainda jovem para estudar na Europa. Passou pela França e depois pela Inglaterra, onde frequentou a Royal Academy of Dramatic Art. Desde cedo demonstrava não apenas beleza, mas uma obstinação feroz em tornar-se atriz 

Seu início no teatro londrino revelou uma intérprete intensa, disciplinada e perfeccionista. Foi nesse período que conheceu o ator Laurence Olivier, então já consagrado nos palcos ingleses. O encontro foi tanto artístico quanto amoroso. Apesar de ambos serem casados, iniciaram um relacionamento que se tornaria um dos mais comentados do meio cultural britânico. A química, no palco e fora dele, era inegável  e juntos formariam um dos casais mais célebres do teatro do século XX.

O estrelato mundial chegou em 1939, quando Leigh foi escolhida para interpretar Scarlett O’Hara na superprodução Gone with the Wind. Vivien trouxe à personagem uma combinação singular de charme, egoísmo,  e determinação. Sua Scarlett não era apenas bela; era ferozmente humana e falha, sendo extremamente antiética e condenavel. O filme tornou-se um fenômeno cultural e permanece como um dos maiores sucessos da história do cinema. Por sua atuação, Leigh recebeu o Oscar de Melhor Atriz

Apesar de ter estrelado no que ficaria como um dos maiores classicos do cinema de todos os tempos, a carreira de Leigh em Hollywood nao teve tanto momentim. Ainda assim, sua carreira  teatro continuou brilhante: destacou-se em montagens shakespearianas ao lado de Olivier, incluindo “Romeu e Julieta” e “Antônio e Cleópatra”. Vivien nunca se considerou apenas uma estrela de cinema; seu maior orgulho era o reconhecimento como atriz teatral séria. Essa busca constante por legitimidade artística era, em parte, uma resposta às críticas que a viam apenas como um rosto bonito.

O sucesso, porém, não trouxe estabilidade emocional. Leigh sofria com o que mais tarde seria diagnosticado como transtorno bipolar. Oscilações extremas de humor, episódios depressivos profundos e surtos maníacos passaram a fazer parte de sua vida. Na época, o entendimento médico sobre saúde mental era limitado, e os tratamentos disponíveis eram invasivos e pouco eficazes. Muitos dizem que o tratamento mais destruiu Vivien do que a salvou

Em 1951, alcançou outro ápice ao interpretar Blanche DuBois na adaptação cinematográfica de A Streetcar Named Desire, dirigida por Elia Kazan e baseada na peça de Tennessee Williams. Leigh entregou uma performance devastadora, expondo camadas de delírio, sensualidade reprimida e desintegração mental. Muitos críticos apontam essa atuação como uma das maiores da história do cinema. Ela recebeu seu segundo Oscar de Melhor Atriz, tornando-se uma das poucas intérpretes a vencer duas vezes na categoria principal.

A ironia cruel da vida é que Blanche DuBois — uma mulher à beira do colapso psicológico — parecia espelhar a própria atriz. As crises de saúde mental de Vivien tornaram-se mais frequentes nos anos seguintes. Seu casamento com Olivier deteriorou-se sob o peso das doenças, das ausências e das pressões profissionais. Separaram-se oficialmente em 1960. Apesar da dor, ambos mantiveram respeito artístico mútuo.

Nos anos finais, Leigh continuou atuando no teatro e em alguns filmes, mas sua saúde física também se fragilizava. Sofria de tuberculose recorrente, doença que a acompanhava desde a juventude. Em 8 de julho de 1967, morreu em Londres, aos 53 anos, após uma recaída da enfermidade. Olivier, ao saber da morte, teria ficado profundamente abalado, reconhecendo que, apesar de tudo, ela fora o grande amor de sua vida.

O legado de Vivien Leigh transcende seus dois Oscars. Ela redefiniu o arquétipo da heroína romântica ao conferir complexidade psicológica às suas personagens. Sua imagem permanece associada à elegância clássica do cinema dourado de Hollywood, mas sua importância vai além da estética. Vivien Leigh abriu espaço para personagens femininas contraditórias, imperfeitas e profundamente humanas. Sua própria vida, marcada por brilho e sombra, tornou-se parte indissociável de sua mitologia.

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