Cruella De Vil é uma das vilãs mais icônicas do panteão da Walt Disney Animation. Diferente de antagonistas que almejam dominar o mundo ou amaldiçoar princesas em reinos medievais, a socialite de cabelos bicolores deseja apenas uma coisa: permanecer absolutamente fabulosa — ainda que isso custe a vida de 99 filhotes de dálmatas. Criada por Dodie Smith, a personagem teve uma estreia estrondosa na animação de 101 Dálmatas (1961) e rapidamente se fixou no imaginário popular, graças ao visual excêntrico, à personalidade extravagante e ao charme venenoso. Ao longo das décadas, Cruella foi reinterpretada no cinema por diversas atrizes, com destaque para Glenn Close e Emma Stone, que ajudaram a reafirmar sua relevância em diferentes gerações.

A personalidade “maior que a vida” de Cruella foi fortemente inspirada na atriz Tallulah Bankhead — uma das figuras mais carismáticas, controversas e subestimadas da Hollywood clássica. Nascida em uma família influente da política americana, Tallulah iniciou sua carreira ainda adolescente, aos 15 anos, participando de produções do cinema mudo hoje perdidas, vítimas da negligência histórica com a preservação fílmica. Aos 21 anos, mudou-se para Londres, determinada a se aprofundar no teatro, e ali permaneceu por oito anos, consolidando sua reputação nos palcos ingleses.

De volta ao cinema, Bankhead tornou-se conhecida por transformar filmes medianos em experiências memoráveis. Seu magnetismo frequentemente se sobrepunha às limitações do material, e sua presença era um diferencial até mesmo em obras de diretores consagrados. Em Lifeboat (1944), de Alfred Hitchcock, entrega uma de suas atuações mais celebradas, dominando a tela com intensidade, ironia e humanidade.

Meu pai me alertou sobre os homens e a bebida, mas nunca mencionou nada sobre as mulheres e a cocaína.

– Tallulah Bankhead

Fora dos sets, Tallulah era igualmente lendária. Famosa por suas festas grandiosas e excessivas, tornou-se presença constante nas colunas de fofoca. Fotografias da época a mostram embriagada, apoiada no ombro da colunista Hedda Hopper ou aceitando drinques improvisados — às vezes servidos dentro de um salto alto, muitas vezes o próprio.

Bissexual assumida em uma era de repressão moral, Tallulah viveu sua sexualidade com uma liberdade rara para os padrões da época. Dona de uma voz rouca inconfundível e de um carisma magnético, acumulou romances entre a elite de Hollywood. Entre seus amantes figuram nomes como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Joan Crawford, Mercedes de Acosta e John Emery, com quem teve um breve casamento. Em 1933, tornou-se capa de revista após contrair uma doença venérea do ator George Raft. Recomendada ao celibato por seus médicos, ignorou completamente a orientação — como ignorava quase todas as convenções impostas a ela.

O que diferenciava Tallulah Bankhead de outras divas era sua versatilidade e ausência de reverência a si mesma. Transitava com naturalidade entre gêneros, linguagens e formatos, do teatro clássico às comédias televisivas. Suas participações em programas como The Lucy-Desi Comedy Hour e Batman evidenciam seu timing cômico impecável e sua capacidade de rir de si própria. Fabulosa, glamourosa e indomável, Tallulah Bankhead foi mal aproveitada por Hollywood — mas jamais esquecida. Sua memória sobrevive nos lugares mais improváveis: nas vilãs exageradas, nas figuras camp e nas personagens que desafiam o bom gosto com estilo. Hoje, a inspiração por trás de Cruella De Vil — assim como a relação entre Úrsula e Divine — é evidente. E esse reconhecimento tardio apenas confirma que o legado de Tallulah continua vivo, ainda que disfarçado sob peles de dálmatas e maquiagens extravagantes.

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