A vitória de Donald Trump na eleição americana de 2024 trouxe de volta ao cenário político uma figura extremamente controversa, que colocou as nações em um estado de cautela. Durante a campanha, o ex-presidente e seus associados tentaram barrar a produção e o lançamento do filme ‘O Aprendiz’, dirigido por Ali Abbasi, temendo que ele pudesse impactar negativamente o período eleitoral. No entanto, tal preocupação não se concretizou. O filme, estrelado por Sebastian Stan e Jeremy Strong, foca em revelar “o homem por trás do monstro”, destacando como um advogado sem escrúpulos moldou o herdeiro de Fred Trump no magnata e político que conhecemos hoje. 

A trama se passa em 1972, quando Richard Nixon ainda sustentava que “não era um canalha”. O jovem corretor Donald Trump, herdeiro de uma família caótica, conhece o lendário advogado Roy Cohn, um conservador infame pela ausência de ética e por seus métodos implacáveis. Com o apoio de Cohn, Trump inicia sua ascensão ao status de magnata, conquistando o mundo com uma combinação de carisma e dinheiro. No entanto, enquanto ele se eleva em sua “torre de sucesso”, o mundo ao seu redor começa a desmoronar: as disputas familiares, os conflitos com sua primeira esposa, Ivana, e a manipulação emocional de seus pais são explorados em detalhes. 

O filme adota uma abordagem cuidadosa ao retratar o homem que comandará os Estados Unidos até 2028, preferindo expor as ideias e métodos questionáveis por trás de sua trajetória, sem ocultar os meios controversos usados para construir sua fortuna. O título, além de fazer referência ao reality show apresentado por Trump, reflete a influência sombria de Roy Cohn, que é representado como o verdadeiro mentor por trás do magnata. Diferentemente de ‘Anjos na América’, que abordou a decadência de Cohn no contexto da AIDS, ‘O Aprendiz’ destaca seu papel como cérebro da ascensão de Trump, até o momento em que sua força e influência começaram a definhar.  

O filme mistura fatos históricos com as lendas associadas à figura de Trump, incluindo as acusações de violência contra Ivana e as infames abotoaduras de diamantes falsos que ele teria presenteado a Cohn antes de sua morte. Um detalhe curioso revelado é a origem do slogan “Make America Great Again”, que, ao contrário do que muitos acreditam, não foi concebido por Trump nem para ele. A obra mescla aspectos de documentário com atuações marcantes de um elenco de peso. 

Sebastian Stan, talvez um dos atores mais subestimados desta temporada de premiações, entrega uma interpretação brilhante de Donald Trump em formação, construindo uma figura que lembra um imperador romano – seja para o bem ou para o mal- sobre uma Nova York em transformação. Jeremy Strong, com uma atuação aparentemente monocórdica, transmite camadas de emoção nas ações de Roy Cohn. Já Maria Bakalova dá a Ivana Trump uma vulnerabilidade raramente explorada antes. No entanto, a recepção da obra nos prêmios de 2025 foi tímida, com destaque limitado às performances de Stan e Strong.  

‘O Aprendiz’ não é uma cinebiografia perfeita, mas oferece um retrato intrigante da criação de uma das figuras mais controversas do cenário político do século XXI.  

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