A Baronesa Margaret Thatcher, primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Reino Unido, morreu em 8 de abril de 2013, após anos lidando com demência e outros problemas de saúde que simbolizavam seu declínio mental. A política, que completaria seu centenário em 13 de outubro de 2025, permanece como uma das figuras mais infames do século XX, cujos quatro mandatos ainda reverberam na sociedade britânica contemporânea. Meses antes de sua morte, Meryl Streep conquistou seu segundo Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação de Thatcher, retratando tanto os anos de glória quanto o crepúsculo da ex-líder.

Última aparção pública de Margaret Thatcher , meses antes de morrer
No filme ‘A Dama de Ferro’, Margaret Thatcher vive reclusa em seu apartamento, sofrendo de demência e dialogando com o fantasma de seu falecido marido, Denis. O longa mergulha nos devaneios da protagonista, que revisita memórias da infância simples, da ascensão meteórica na política, dos anos de poder absoluto e das quedas que marcaram sua trajetória.
Embora o filme se destaque principalmente pela atuação arrebatadora de Streep — como de costume —, ele se configura como um retrato melancólico do fim de uma das figuras políticas mais marcantes do Ocidente. Para muitos espectadores, é um primeiro vislumbre da vida e carreira de Margaret Thatcher. A produção parece ser uma das últimas tentativas de consagrá-la como símbolo de empoderamento feminino, antes que obras da metade da década de 2010 passassem a traçar paralelos entre ela e figuras controversas como Donald Trump como fez o drama histórico”The Crown”.

O que dizer de Meryl Streep nesse papel? Auxiliada por uma maquiagem impressionante e uma composição física meticulosa, a atriz entrega uma personagem que transita com maestria entre altivez e fragilidade, firmeza e desorientação. Sua performance ganha ainda mais força por acontecer em meio ao colapso mental da ex-primeira-ministra — uma interpretação que transforma uma narrativa política em um estudo íntimo sobre o envelhecimento e a perda de identidade.
Contudo, o filme evita confrontar de forma incisiva o legado político de Thatcher. Embora não esconda sua personalidade autoritária e inflexível, opta por focar na dificuldade de uma mulher em ascender dentro de um ambiente político masculino. Há cenas que mostram protestos, greves e explosões de violência resultantes de suas políticas, mas esses eventos são tratados como ruído de fundo, meros ecos diante da presença da protagonista. A Guerra das Malvinas, por exemplo, é retratada como um triunfo pessoal, sem qualquer reflexão crítica sobre o imperialismo britânico ou o impacto humano do conflito, de ambos os lados.

A comparação entre ‘A Dama de Ferro’ e o aclamado ‘The Father’ estrelado por Anthony Hopkins, é inevitável. Ambos exploram o horror silencioso da demência de forma íntima e claustrofóbica, emoldurando a mente em colapso como um labirinto sem saída. Curiosamente, os dois filmes compartilham a presença de Olivia Colman: em ‘Meu Pai’, ela vive a filha do personagem de Hopkins; já em ‘A Dama de Ferro’, interpreta Carol Thatcher, filha de Margaret. Nos dois casos, a relação entre pais e filhas funciona como um espelho partido, revelando a dor silenciosa de testemunhar o declínio de alguém que um dia foi figura de autoridade e referência.
Enquanto “Meu Pai” adota uma linguagem cinematográfica mais inovadora e subjetiva — com mudanças sutis nos cenários, lapsos temporais e personagens ambíguos — para nos colocar dentro da mente confusa do protagonista, ‘A Dama de Ferro’ opta por uma abordagem mais tradicional, intercalando memórias com o presente fragmentado de Thatcher, representando uma espécie de tortura psicológica com uma alucinação de Denis a afastando da realidade. Ainda assim, ambos filmes compartilham a mesma essência: a percepção de que o poder, o intelecto e a autonomia podem desaparecer lentamente, deixando apenas sombras de quem um dia se foi

Como cinebiografia, ‘A Dama de Ferro’ falha em diversos aspectos, especialmente por sua relutância em investigar as implicações políticas de sua protagonista. Contudo, como ensaio poético sobre a demência e sobre a fragilidade do poder, o filme é eficaz, sustentado por uma atuação potente de uma das maiores atrizes do cinema moderno. Ame ou odeie suas políticas, este filme oferece um retrato íntimo de uma das figuras mais icônicas da história contemporânea — embora uma análise crítica mais ampla seja necessária para compreender plenamente o controverso legado da “Dama de Ferro”.

