Duas divas da Era de Ouro de Hollywood, rivais, que inventaram histórias maldosas uma sobre a outra e alimentaram a imprensa com declarações destinadas a leitores ávidos por escândalos. Mas não estamos falando da titânica rixa entre Joan Crawford e Bette Davis. Trata-se, na verdade, de um conflito familiar que atravessou toda uma vida: Olivia de Havilland e Joan Fontaine. São as únicas irmãs na história a vencerem o Oscar, mas suas trajetórias são lembradas, sobretudo, pela relação conturbada que mantiveram.
Olivia e Joan de Beauvoir nasceram no Império do Japão, filhas da aristocrática família De Havilland, e rivalizavam desde muito pequenas. Olivia, segundo relatos, rasgava os vestidos da irmã caçula após determinadas provocações, enquanto a frequentemente doente Joan afirmava que Olivia era a filha favorita da mãe.

Olivia foi rapidamente notada por sua beleza clássica e seu comprometimento artístico, mais alinhado ao teatro e ao cinema da época. Dona de um carisma ímpar, destacou-se ao lado de Errol Flynn em sucessivos sucessos como seu par romântico, eternizando-se como a Lady Marian de seu Robin Hood. Seu papel mais memorável viria como Melanie Hamilton em …E o Vento Levou (1939). Na pele da doce e serena Melanie, Olivia contrastava com a volátil Scarlett O’Hara, conquistando sua primeira indicação ao Oscar — embora tenha perdido para Hattie McDaniel, a primeira atriz afro-americana a receber o prêmio. Mais tarde, De Havilland também se tornaria um nome fundamental na luta contra o sistema de estúdios, com uma lei que leva seu nome garantindo maior autonomia contratual aos atores.
A caçula, Joan Fontaine, nascida em 1917, cresceu à sombra da irmã mais velha — e com a mãe aparentemente favorecendo a primogênita, a quem chamava de “Livie”. Para iniciar sua carreira no cinema, Joan abriu mão do sobrenome De Havilland e adotou o “Fontaine”, de sua mãe. A decisão já indicava sua intenção de se firmar como figura independente, desvinculada da irmã.

Joan ascendeu aos poucos, com papéis coadjuvantes que foram ganhando destaque, até alcançar o estrelato sob as lentes de Alfred Hitchcock. Sua atuação em Rebecca (1940), o primeiro filme hollywoodiano do diretor britânico, trouxe-lhe reconhecimento imediato. No ano seguinte, venceu o Oscar por Suspeita (1941), também dirigido por Hitchcock — um feito que marcou o auge e, ao mesmo tempo, o ponto de tensão máxima na rivalidade entre as irmãs.
Na cerimônia do Oscar de 1942, ambas estavam indicadas — Joan por Suspeita, Olivia por Só Resta uma Lágrima. Quando o nome de Joan foi anunciado como vencedor, teria, segundo algumas versões, ignorado o cumprimento da irmã. Outras fontes dizem o contrário: que Olivia teria se recusado a felicitar Joan. A imagem capturada naquele instante — um breve e frio contato visual — tornou-se icônica. Nenhuma das duas comentou o episódio diretamente, mas os tabloides, especialmente os da colunista Hedda Hopper, nunca o esqueceram.

A cena do Oscar sempre era retomada em entrevistas, com Joan fornecendo mais combustível à rixa do que Olivia. Durante décadas, mantiveram uma cordialidade distante, como se ainda restasse algum senso de família entre elas. A ruptura definitiva veio nos anos 1970, após a morte da mãe: Joan estava fora da cidade e não foi devidamente notificada por Olivia, sendo excluída das decisões do funeral. Olivia jamais respondeu publicamente às declarações da irmã — e as duas nunca mais se falaram, seguindo suas carreiras e, ocasionalmente, mencionando uma à outra em entrevistas cautelosas.
“Casei primeiro, ganhei o Oscar antes da Olivia e, se morrer primeiro, ela ficará sem dúvida furiosa por eu ter chegado antes dela!”
– Joan Fontaine sobre sua rivalidade com Olivia de Havilland
Quando Joan faleceu, em 2013, aos 96 anos, Olivia divulgou apenas um breve comunicado, afirmando ter recebido a notícia com tristeza. De Havilland viveu até 2020, alcançando os 104 anos — a última sobrevivente do elenco principal de …E o Vento Levou e um dos últimos elos vivos com a Era de Ouro de Hollywood.

Hoje, Olivia de Havilland e Joan Fontaine ainda fascinam o público, não apenas por seus talentos, mas pela intensidade dramática de sua relação. Enquanto uma simbolizava força moral e nobreza de espírito, a outra projetava fragilidade emocional e tensão existencial. Irmãs por destino, rivais por escolha — ou circunstância. Unidas para sempre no imaginário do cinema, separadas pela vida

