Os céus de Londres podem pertencer a Mary Poppins, mas é no interior da Inglaterra que reina Nanny McPhee. Em um mundo onde o caos infantil impera, Nanny McPhee – A Babá Encantada apresenta-se como uma fábula moral disfarçada de comédia familiar, equilibrando o realismo vitoriano com o toque doce da fantasia clássica. Lançado em 2005 e baseado na série de livros Nurse Matilda, de Christianna Brand, o filme é uma encantadora lição sobre responsabilidade, amor e transformação.
A trama gira em torno do Sr. Brown, um viúvo atolado em dívidas que tenta, sozinho, criar seus sete filhos absolutamente indomáveis. As crianças não são apenas travessas — são estrategicamente destrutivas, já tendo expulsado inúmeras babás com táticas que beiram o terrorismo doméstico. Quando tudo parece perdido, uma figura inusitada bate à porta: Nanny McPhee, uma babá mágica de aparência sinistra, mais próxima de uma bruxa do que de uma governanta tradicional. Ela promete impor ordem não com gritos, mas com encantos sutis, lições firmes e o bater de uma bengala.
O roteiro, assinado pela própria intérprete da babá, Emma Thompson, acerta ao não subestimar seu público. Embora claramente voltado para os jovens, o filme adota uma estrutura narrativa que respeita a inteligência de quem assiste. Cada lição ensinada por Nanny McPhee é apresentada com clareza, mas nunca de forma panfletária. A fantasia aqui não substitui a realidade — é uma ferramenta que amplia sua compreensão. Essa escolha o diferencia de outras obras do gênero, onde a mágica muitas vezes funciona como fuga. Em Nanny McPhee, ela serve para aproximar os personagens da realidade emocional que precisam encarar. Apesar de, à primeira vista, parecerem punições, os encantamentos da babá ajudam as crianças a reencontrar a leveza da vida — e a se reconectar com o pai.
Visualmente, o filme se destaca pela direção de arte vibrante e por uma paleta de cores que oscila entre o pastel infantil e os tons sépia da tradição britânica. As locações evocam uma Inglaterra de contos de fadas, onde os ambientes desorganizados refletem a confusão emocional dos personagens. E são justamente os detalhes — como a ama tentando aprender a ler ou a babá reconhecendo a presença da falecida esposa — que enriquecem a narrativa. A trilha sonora, composta por Patrick Doyle, acompanha os momentos mágicos com leveza e delicadeza, sem cair na tentação de sublinhar em excesso as emoções.
A caracterização de Nanny McPhee é, sem dúvida, um dos grandes trunfos do longa. Coberta por próteses grotescas, Emma Thompson transita com maestria entre o temível e o ternamente autoritário. Sua atuação impede que a personagem escorregue na caricatura. À medida que as crianças evoluem moralmente, a aparência da babá também se transforma — tornando-se mais suave, mais humana. É uma metáfora visual simples, mas eficaz: a beleza da convivência e da bondade revelando-se aos poucos, conforme o caos se dissipa.
Colin Firth empresta sua habitual dignidade ao papel do pai desajeitado, equilibrando bem o humor e o desespero contido. O elenco infantil surpreende pela eficiência, especialmente Thomas Sangster, com sua aparência eternamente juvenil, que interpreta Simon — o líder dos irmãos e o primeiro a perceber que a nova babá não é como as outras. Angela Lansbury brilha como a excêntrica tia Adelaide, em uma participação deliciosamente exagerada. Kelly Macdonald empresta carisma e doçura à resiliente Evangeline, enquanto Imelda Staunton diverte como a cozinheira ranzinza.
No coração da obra reside uma reflexão delicada sobre o papel da figura parental e o poder do afeto na formação do caráter infantil. Nanny McPhee, com seus feitiços e pausas dramáticas, atua como catalisadora de um processo que, no fundo, depende da escuta, da presença e da autoridade emocional dos adultos. Em tempos de desatenção crônica e terceirização afetiva, esse subtexto confere ao filme uma atualidade inesperada.
Nanny McPhee é, portanto, mais do que uma história sobre uma babá mágica. É uma lição cuidadosamente envolta em açúcar e encantamento, que convida pais e filhos a reavaliar seus papéis e responsabilidades. A magia, aqui, não é fuga da realidade, mas um lembrete de que, com paciência e imaginação, a ordem pode surgir do caos — e que, às vezes, é preciso alguém muito estranho para ensinar as verdades mais simples.

