Guillermo del Toro é um dos grandes maestros do cinema contemporâneo. O cineasta mexicano, conhecido por seu estilo fantástico aliado a um profundo respeito pela tradição, é responsável por clássicos modernos que, embora oscilem nas bilheterias, costumam ser aclamados pela crítica. Em Nightmare Alley (2021), Del Toro abandona — ao menos à primeira vista — os fantasmas literais que povoaram suas obras anteriores para explorar um universo de horrores mais sutis, em clara homenagem ao neo-noir, mas não menos aterrador. Trata-se de uma adaptação do romance homônimo de William Lindsay Gresham, já levado às telas em 1947 por Edmund Goulding, agora transformado em um banquete visual e psicológico sobre decadência moral, engano e ambição desenfreada.
A narrativa acompanha Stanton Carlisle, um homem de passado nebuloso que encontra refúgio em um circo itinerante durante a Grande Depressão americana. Fascinado pelo universo dos “freaks”, da ilusão e da leitura mental, Stan aprende os truques do ofício e, seduzido pelo poder da manipulação, parte para conquistar o mundo como um mentalista sofisticado, vendendo esperança, reencontros e falsas revelações espirituais a uma elite traumatizada. No entanto, em sua busca por ascensão social e domínio simbólico, ele mergulha em um jogo perigoso — e fatal — com forças que não compreende por completo.
Del Toro constrói Nightmare Alley como um labirinto estético e narrativo, no qual cada cena parece meticulosamente talhada em luz e sombra. A direção de arte e o design de produção, amplamente reconhecidos como um dos maiores trunfos do filme, recriam com precisão quase gótica os bastidores do showbiz marginal dos anos 1930, contrastando com o art déco frio e reluzente dos escritórios e mansões da alta sociedade. O cenário não é apenas pano de fundo: torna-se personagem. O circo representa o grotesco, o orgânico e o sombrio; a cidade grande, por sua vez, encarna a hipocrisia e a morte emocional — o palco onde se desenrola a sedução e ruína dos protagonistas.
Bradley Cooper entrega uma performance contida e inquietante, que cresce conforme seu personagem é corrompido pela própria ambição. No início, Stan é uma tela em branco: um homem bonito, misterioso e observador, aparentemente fugindo de algo. Aos poucos, transforma-se em criatura do espetáculo, mestre da manipulação e do convencimento — mas, por dentro, cada vez mais vazio. O clímax dessa transformação se dá quando ele cruza o caminho da psiquiatra Lilith Ritter, interpretada por uma hipnotizante Cate Blanchett. Lilith é tão fria quanto seu nome sugere: uma femme fatale cerebral, moldada à imagem de Marlene Dietrich, que esconde sob sua elegância uma voltagem emocional destrutiva. A dinâmica entre os dois se transforma em uma dança com cada um tentando decifrar — e devorar — o outro.
Nightmare Alley é, acima de tudo, um estudo sobre a construção do mito pessoal e o preço da mentira. Stan acredita que pode controlar tudo: a narrativa que cria sobre si, os sentimentos dos outros, os limites do real. Mas o mundo que Del Toro apresenta não é mágico — é moral. E, nesse mundo, não há lugar para criaturas encantadas como em O Labirinto do Fauno ou A Forma da Água. Aqui, o horror é brutal justamente por ser humano. A figura do “geek” — o artista do freak show que devora animais vivos em troca de álcool e abrigo — torna-se a metáfora perfeita da degradação final do homem.
Do ponto de vista cinematográfico, Nightmare Alley é uma obra de esmero técnico irrepreensível. A fotografia de Dan Laustsen mergulha o espectador em atmosferas densas, por vezes quentes e sujas, outras vezes frias e cortantes, refletindo a transição do protagonista. A trilha sonora de Nathan Johnson, discreta mas evocativa, ecoa os antigos filmes noir e intensifica a sensação de tragédia inevitável. O rigor formal, que alguns podem interpretar como distanciamento emocional, é, na verdade, proposital: um reflexo do mundo que Stan constrói — belo por fora, podre por dentro.
Há também um subtexto social que atravessa a obra: a promessa americana de ascensão social, tantas vezes propagada como ideal democrático, aqui se revela como um espetáculo de exploração. Stan é o arquétipo do self-made man que, ao atingir o topo, descobre que o preço da ascensão é tornar-se monstro. Ele seduz os ricos, mas acaba sendo destruído por eles. Lançado no fim de 2021, em meio a uma América polarizada, traumatizada e sedenta de sentido, o filme ressoa com inteligência as inquietações contemporâneas.
Nightmare Alley não é um filme fácil. Sua cadência é lenta, sua atmosfera é pesada, e seus personagens são moralmente ambíguos ou completamente corrompidos. Mas é justamente nesse desconforto que reside sua força. Del Toro, mais uma vez, entrega uma obra que desafia expectativas, borrando os limites entre beleza e horror, realismo e fantasia, sucesso e queda.
Nightmare Alley reafirma Guillermo del Toro como um cineasta que sabe extrair beleza da escuridão e humanidade do grotesco. Sua visão, sempre sensível e perturbadora, transforma uma história sobre fraude e ambição em um espelho incômodo, onde cada espectador é convidado a se encarar. Não se trata apenas de mais um remake, mas de uma obra sofisticada, rica em camadas, que convida à reflexão e permanece com o público muito depois dos créditos finais. É cinema de verdade — que desafia, provoca e permanece.

