O diretor chileno Pablo Larraín encerra sua “trilogia de mulheres notáveis” com Maria, filme que reconta a vida da cantora de ópera Maria Callas. Entre os trabalhos de Larraín estão Jackie, que retrata a vida de Jacqueline Kennedy após o assassinato de JFK, e Spencer, que aborda o último Natal de Diana Spencer enquanto ainda casada com o Príncipe de Gales. Ambos os filmes se destacam pelas atuações impressionantes de suas protagonistas e por histórias intensamente dramatizadas. Agora, é a vez de Callas ganhar vida novamente, desta vez interpretada por Angelina Jolie.

Ambientado em outubro de 1977, o filme retrata a última semana de vida da “Grande Diva”, que, isolada em seu apartamento em Paris, gradualmente perde o senso de realidade. Fragilizada, Maria Callas revisita sua trajetória, sua carreira e seu relacionamento com o magnata Aristóteles Onassis, enquanto busca reencontrar sua voz.

Assim como nas obras anteriores, Maria toma diversas liberdades criativas em relação à história real, apresentando Callas como uma figura reclusa, obcecada com a possibilidade de um retorno aos palcos e priorizando a arte em detrimento de sua própria saúde. O mais recente filme de Larraín aproxima-se mais de um estudo de personagem no arquétipo do artista obcecado do que de uma cinebiografia convencional. Longas cenas destacam o declínio físico e emocional da cantora, enquanto ela planeja seu retorno e se desconecta da realidade, atormentada por alucinações com jovens cineastas interessados em sua vida.

A narrativa roteirizada por Steve Knight é cercada por uma estética que privilegia a elegância e o glamour associados à grande performer. A fotografia em tons frios, intercalada com cenas em preto e branco, recria a Paris da década de 1970 e a alta sociedade frequentada por Onassis. Os figurinos detalhados procuram reviver o guarda-roupa icônico da diva, seja em suas memoráveis apresentações ou em momentos casuais, como uma alucinação em um café parisiense, sempre conferindo a Jolie uma aura de sofisticação.

Angelina Jolie, cotada como uma das favoritas à categoria de Melhor Atriz por sua atuação transformadora, interpreta Maria Callas como uma figura trágica presa ao seu passado. Com uma performance que equilibra intensidade emocional e fragilidade, Jolie entrega uma diva melancólica e derrotada. Mesmo nas cenas musicais, onde gravações originais de Callas são reutilizadas, a dedicação da atriz, que se preparou por meses para o papel, é evidente. Seus momentos de silêncio, com olhares profundos e uma linguagem corporal minuciosa, revelam o sofrimento interno de sua personagem.

Distante de ser uma cinebiografia tradicional, como Jackie, ou de reinventar a história, como Spencer, Maria é uma ficção que apresenta ao público a tragédia que marcou os últimos dias de Maria Callas em 1977. Com uma das performances mais impactantes de Angelina Jolie nos últimos anos, o filme é uma experiência visualmente refinada, ideal para quem o enxerga como um estudo do artista obcecado, embora se afaste da realidade por trás da grande diva.

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