No dia 15 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema anunciará o longa-metragem selecionado para representar o país na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional – categoria em que o Brasil é, pela primeira vez, o incumbente. Cinco filmes de qualidade exemplar figuram entre os finalistas, mas dois se destacam e têm ganhado força: “Manas”, de Marianna Brennand, e “O Agente Secreto” , de Kleber Mendonça Filho – um dos filmes mais premiados do Festival de Cannes de 2025.

“Manas” narra a história de Marcielle, uma jovem que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó. Inspirada pelas falas da mãe, ela cultua a imagem da irmã mais velha, Claudinha, que deixou a família após “arrumar um homem bom” nas balsas que cruzam a região. Ao amadurecer, Marcielle vê suas idealizações ruírem. Diante de um futuro sem muitas perspectivas, decide enfrentar a engrenagem violenta que domina sua comunidade – ainda que a chance de sucesso seja incerta.

Já “O Agente Secreto” acompanha Marcelo, que, decidido a escapar de um passado violento e misterioso, muda-se de São Paulo para Recife em busca de um recomeço. Ao chegar à capital pernambucana em plena semana de Carnaval, descobre que atraiu para si o caos que sempre tentou evitar.

Ambos os filmes receberam elogios da crítica especializada. O retorno de Kleber Mendonça Filho despertou atenção no circuito internacional e reforça sua trajetória iniciada com “Ainda Estou Aqui”, revisitando o período da ditadura militar. Por outro lado, “Manas” tem sido descrito como uma ficção visceral que lança luz sobre a dura realidade da violência sexual contra meninas na Ilha de Marajó.

Desde o anúncio da shortlist pela Academia, o debate tem sido intenso. Uma carta aberta, assinada por cerca de 70 empresas de diferentes setores – incluindo Luciana Temer, diretora-executiva do Childhood Brasil e filha do ex-presidente Michel Temer, figura criticada por Mendonça Filho –, pediu que “Manas” fosse escolhido como representante brasileiro no 99º Academy Awards. O documento enfatiza a necessidade de dar visibilidade a um problema urgente no país, mesmo que o longa tenha passado relativamente despercebido em sua estreia em maio de 2025. A produção ganhou novo fôlego com o apoio de uma produtora internacional ligada ao ator Sean Penn.

Ainda assim, é preciso reconhecer que discussões sobre violência sexual dificilmente terão espaço no palco do Oscar. Elas precisam acontecer nos jornais, nas rodas de conversa, nas políticas públicas. Se a Academia de Hollywood estivesse realmente comprometida com as vítimas de abuso, já teria expurgado de suas fileiras muitos dos predadores que só caíram em desgraça após o movimento #MeToo. O Oscar não é o lugar onde esse problema será resolvido; é no solo brasileiro, com políticas concretas e engajamento social, que avanços reais poderão ser alcançados.

E é aqui que está o ponto central: não escolher “O Agente Secreto” seria um erro estratégico. 

Em Cannes, o filme de Kleber Mendonça Filho foi um dos mais premiados, rendendo láureas ao diretor e a Wagner Moura, além de garantir distribuição internacional pela NEON – produtora responsável pelas últimas cinco Palmas de Ouro e por dois vencedores do Oscar de Melhor Filme, como “Parasita” e “Anora”. Desde então, “O Agente Secreto” figura com frequência nas listas de previsões para diversas categorias, e sua força de campanha depende fortemente de uma indicação em Filme Internacional. Sem essa chancela, a NEON provavelmente concentrará esforços em títulos com chances mais concretas de vitória.

A recente “oscarmania” brasileira, alimentada pelo sucesso de “Ainda Estou Aqui” na última temporada, atraiu um público que muitas vezes desconhece o funcionamento da corrida. O filme escolhido nem sempre é o “melhor”, mas sim aquele que possui mais força de campanha e sabe se posicionar estrategicamente – como ocorreu com Walter Salles em sua aproximação com “Emilia Perez”. Apesar de “Manas” abordar um problema real e profundamente brasileiro, sua trajetória internacional ainda é tímida. Já “O Agente Secreto” apresenta perfil mais alinhado ao que a Academia costuma premiar, mostrou apelo global e tem potencial de garantir visibilidade inédita para o cinema brasileiro em categorias além de Filme Internacional.

 A escolha de “O Agente Secreto” não se trata de ignorar a relevância social de “Manas”, mas de reconhecer a oportunidade histórica que o Brasil tem de ampliar sua presença no Oscar. Um filme com distribuição consolidada, aclamação crítica internacional e potencial de competir em múltiplas categorias é a aposta mais sólida para manter o país no radar da Academia. Apostar em “O Agente Secreto” é apostar no fortalecimento do cinema nacional no cenário global – algo que, no longo prazo, beneficia todas as histórias brasileiras, inclusive as que ainda precisam ser contadas.

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