O cinema brasileiro contemporâneo é marcado, em sua maioria, por comédias, dramas históricos e produções que funcionam como vitrines para jovens atores demonstrarem seu talento. Embora tenha em Zé do Caixão — interpretado por José Mojica Marins — uma figura icônica no panteão nacional, o terror ainda é um gênero marginalizado. Disponível na plataforma de streaming Max, A Herança é uma produção queer que amplia, mesmo que timidamente, os limites do terror brasileiro.

Thomas vive em Berlim com seu namorado, Beni, quando recebe a notícia da morte da mãe e uma herança composta por objetos de cunho ocultista. O casal viaja ao Brasil para lidar com o espólio e conhece duas tias que vivem em uma casa colonial isolada e que recebem Thomas com entusiasmo inquietante. Aos poucos, ele é seduzido pela propriedade e pela promessa de pertencimento, enquanto Beni começa a desconfiar das reais intenções das tias.

Mais do que uma narrativa de horror, A Herança é um filme sobre memória, identidade e hereditariedade — tanto biológica quanto cultural. Thomas representa um sujeito queer que, ao deixar o país e construir uma vida livre e afetivamente realizada na Europa, parece ter rompido com as tradições familiares e os vínculos sociais impostos. No entanto, a herança simbólica e literal o chama de volta. Esse retorno desencadeia uma jornada não apenas física, mas também emocional e identitária. Ao se deparar com raízes que preferiu esquecer, Thomas confronta os valores, traumas e silêncios que moldaram sua origem.

O longa, em muitos aspectos, evoca a estética de um curta universitário, onde o menos é mais e o ambiente comunica mais do que os diálogos. A direção transforma sutilezas e hábitos culturais brasileiros em cenas de profundo desconforto: as tias invasivas que insistem em relembrar tempos áureos, oferecendo bolos e hospitalidade sufocante — experiências que, embora comuns, adquirem contornos perturbadores. A casa, um casarão amplo e decadente, é praticamente um personagem à parte, com seus cômodos largos, decoração fantasmagórica e atmosfera opressiva que remete às tragédias sobrenaturais da casa de Amityville, eternizada no clássico Horror em Amityville.

A Herança dialoga com diversos clássicos do gênero. A narrativa vaga e envolta em mistério, que gira em torno da influência quase mágica da propriedade e de suas moradoras, remete a Suspiria, de Dario Argento. Já os rituais pagãos e as cenas de violência simbólica, banhadas em sangue, evocam O Bebê de Rosemary e A Bruxa, culminando em uma conexão grotesca entre Thomas e uma entidade pagã escondida no porão da casa.

As atuações contribuem para a densidade dramática do filme. Diego Montez entrega um protagonista contido e introspectivo; Yohan Levy interpreta Beni como o contraponto racional e amoroso da relação. As atrizes veteranas Analu Prestes, Cristina Pereira e Gilda Nomacce — esta última, um ícone do terror nacional — entregam performances que oscilam entre o cômico e o grotesco, contribuindo para a atmosfera ambígua que permeia o longa. Nomacce, em especial, surge brevemente, mas sua presença convoca a memória do cinema de terror brasileiro e homenageia sua própria trajetória.

No panorama do cinema brasileiro contemporâneo, A Herança se destaca por sua ousadia estética e temática. Em um país onde o horror ainda luta por reconhecimento crítico e espaço comercial, a aposta do diretor Marcelo Grabowsky Zacharias é corajosa e bem-sucedida. Mais do que um filme de terror, A Herança é uma alegoria sobre o peso do passado, a violência simbólica das tradições e a luta pela afirmação de identidades dissidentes em meio a estruturas opressivas.

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