O Prometeu Moderno, de Mary Shelley, é uma das obras mais conceituadas da literatura gótica — um relato arrepiante sobre a ambição e o complexo de Deus do ser humano. Em 1931, com o monstro mais infame da ficção sendo interpretado por Boris Karloff, o mundo inteiro se reconectou com essa criatura cuja missão única e quase silenciosa é confrontar seu criador. Agora, em 2025, sob as lentes de Guillermo Del Toro, criador e criatura retornam às telas em mais uma eletrizante versão dessa história atemporal, disponivel na Netflix a partir de 7 de Novembro.
Victor Frankenstein é apresentado como um cirurgião arrogante, obcecado pela morte. Financiado por Herr Harlander, ele tem a oportunidade de desafiar os limites do conhecimento ao construir uma criatura viva. Quando seu experimento finalmente se mostra bem-sucedido, o Barão é tomado por repulsa e tenta eliminar o ser que trouxe ao mundo. Pela primeira vez, Frankenstein experimenta a lucidez — e sua criatura, a consciência. Suas emoções florescem em uma espiral de descobertas que culminam na mais humana das dores: a solidão.
Embora Del Toro tome liberdades com a história original de Shelley — introduzindo novos personagens e dilemas —, o filme preserva o cerne da obra: a arrogância de Frankenstein e como sua ambição o conduz inevitavelmente à ruína. A tragédia da criatura serve como complemento ideal à narrativa adaptada pelo diretor. Vindo de um cineasta que transita entre o belo e o grotesco, este Frankenstein é mais contido em seu horror, mas jamais carece de profundidade. O conflito entre “Criador” e “Criatura”, e a eterna tentativa de alcançar o divino, são as engrenagens que movem a história e revelam, nos personagens, tanto a humanidade quanto a ausência dela.
A direção de Del Toro e o primoroso design de produção criam um universo singular para essa narrativa já tão revisitada. A grandiosidade decadente dos cenários, contrastando com detalhes minuciosos e sombrios, diferencia esta versão das anteriores. A precisão quase cirúrgica que antecede a reanimação do monstro mais famoso da ficção carrega as marcas inconfundíveis do diretor mexicano.
Os figurinos, assinados por Kate Hawley, dialogam perfeitamente com a atmosfera gótica e a mitologia da obra. Das roupas puídas de Victor Frankenstein aos trapos que refletem a degradação da Criatura, até os vestidos cintilantes de Elizabeth — adornados com joias da Tiffany —, cada peça contribui para o luxo e a identidade visual da narrativa.
Oscar Isaac entrega um Victor Frankenstein carismático e arrogante, um anti-herói hipnótico que encarna a razão e o desespero humano. Christoph Waltz, com seu charme habitual, dá vida a um personagem original criado para o filme, movido por motivações sombrias que ampliam o mito do Prometeu Moderno. Mia Goth, com poucas mas enigmáticas falas, oferece uma nova e misteriosa versão de Elizabeth. O elenco ainda conta com Felix Krammer, Lars Mikkelsen, Christian Convery, Charles Dance e Doug Bradley — este último em uma aparição comovente.
Mantido em segredo durante a divulgação, Jacob Elordi revela-se como a Criatura de Frankenstein em uma das atuações mais marcantes da produção. Embora não desapareça totalmente dentro do papel, ele o encapsula com intensidade. Del Toro já havia comentado, em entrevistas, sobre “os olhos de Elordi” — e de fato, é neles que reside o diferencial: por trás da imponência física, seus olhos refletem vazio, inocência, devoção e tragédia. Sob camadas de próteses, o ator entrega uma performance arrebatadora, impossível de ignorar.
Com Frankenstein (2025), Guillermo Del Toro não apenas revisita um clássico, mas o reconstrói com alma e sensibilidade, reafirmando sua habilidade de encontrar poesia no macabro. O filme é um espelho da criação humana — belo e terrível —, onde a busca por perfeição se transforma em maldição. Entre carne e máquina, fé e ciência, vida e morte, Del Toro nos lembra que o verdadeiro monstro talvez nunca tenha sido a criatura… mas o próprio desejo humano de ser Deus.

