Os animais domésticos costumam ser as maiores — ou pelo menos as primeiras — vítimas dos filmes de terror. Capazes de pressentir quando algo não está certo, esses companheiros de quatro patas são, em geral, os primeiros a reagir, o que quase sempre os leva à morte nos primeiros minutos de projeção. Em Good Boy (2025), porém, essa expectativa é subvertida no desconfortável e curioso longa que marca a estreia de Ben Leonberg na direção.
Todd e seu cachorro, Indy, mudam-se para uma casa isolada no meio do bosque, onde o avô do rapaz morreu anos antes sob circunstâncias misteriosas. Enquanto a doença de Todd avança, Indy precisa fazer o que está ao seu alcance para ajudá-lo e protegê-lo de uma entidade que habita as sombras — uma presença invisível aos olhos humanos, mas claramente percebida pelo cão.

De certa forma, o filme guarda semelhanças com o clássico da Disney’ A Dama e o Vagabundo’, sendo contado quase inteiramente sob o ponto de vista do cachorro. Raramente vemos com nitidez o rosto dos atores que interpretam Todd, sua irmã ou o vizinho. O mundo, visto de baixo para cima — como enxergaria um cão —, contribui para a criação de ângulos extremos, silhuetas distorcidas e uma sensação constante de estranhamento. Ao adotar uma perspectiva animal, o filme transforma situações aparentemente banais em obstáculos fatais, intensificando a tensão de cada cena.
Indy é interpretado por… o próprio Indy, o Retriever da Nova Escócia de Leonberg. O cão se revela uma verdadeira estrela: está sempre à vontade em cena, transmitindo emoções legíveis em seus grandes e expressivos olhos castanhos. Seu carisma é essencial para o sucesso do filme, que nos faz torcer por ele do início ao fim — especialmente ao longo da tensa 1h15 de duração, em que o animal se mostra nervoso, ansioso e vulnerável. O elenco humano é compacto, contando com Shane Jensen como Todd, Arielle Friedman como Vera (a irmã do protagonista), Larry Fessenden como o avô e Stuart Rudin em participação coadjuvante.

Leonberg mantém a narrativa suficientemente ambígua para provocar o espectador: afinal, do que se trata a entidade coberta de lama que atormenta Todd? Seria uma criatura sobrenatural ou uma manifestação simbólica da morte? Com referências sutis ao expressionismo alemão de Nosferatu e um uso engenhoso do ambiente natural, o diretor cria uma ameaça aterrorizante justamente por permanecer indefinida.
O coração do filme, como em quase todo “filme de cachorro”, está na relação entre o dono e seu animal — e no preço de amar e ser amado por um ser que, inevitavelmente, viverá menos do que nós. Good Boy é, acima de tudo, uma reflexão sobre o vínculo incondicional entre humanos e cães, sobre o medo de perder e o dever de deixar partir. As aparições de Bandit, o golden retriever fantasma que pertenceu ao avô de Todd, reforçam a mensagem central: o apego excessivo ao passado pode ser tão destrutivo quanto qualquer entidade que habite a escuridão.
Com Good Boy, Ben Leonberg entrega um terror de atmosfera densa e sensível, que equilibra o horror sobrenatural com a ternura silenciosa da convivência entre homem e animal. Ao transformar um cachorro em protagonista e testemunha do medo, o filme questiona o olhar humano sobre a perda e a lealdade, deixando o público dividido entre o pavor e a emoção.

