Depois de anos de incerteza, a adaptação cinematográfica de ‘Wicked’, um dos musicais mais populares da história da Broadway, ganhou vida sob a direção de Jon M. Chu. O primeiro ato da história (mostrando como Elphaba e Glinda se tornaram amigas ) foi lançado em 2024 para aclamação universal, sendo rapidamente alçado ao posto de um dos melhores filmes musicais da atualidade. A conclusão épica dessa narrativa, em ‘Wicked: For Good’, expande e complementa uma trama já conhecida, apresentando-a por outro ângulo.

Apesar do sucesso indiscutível da peça baseada no livro de Gregory McGuire, muitos concordam que o segundo ato é, por natureza, menos impactante que o primeiro: as músicas mais populares se concentram no período de Shiz, e a necessidade de conectar a tragédia de Elphaba à história clássica de ‘O Mágico de Oz’ tende a reduzir o poder narrativo e sugerir certa falta de desenvolvimento. Por esse motivo (mesmo que não explicitado de maneira clara) a divisão em dois filmes se tornou um trunfo para Jon M. Chu, permitindo ampliar o desenvolvimento dramático, ainda que o frescor que acompanhou o primeiro longa não se repita por completo.

Elphaba, agora conhecida como a temida “Bruxa Má do Oeste”, continua sua busca para salvar os animais de Oz do regime imposto pelo farsante Mágico. Enquanto isso, Glinda — finalmente coroada com o título de “A Boa” — torna-se o rosto cintilante dessa nova era, colocando sua amizade em segundo plano mais uma vez. Tentando reparar o passado e garantir seus futuros, essas duas bruxas terão sua relação colocada à prova máxima… tudo isso enquanto uma jovem do Kansas e seu fiel cachorrinho chegam à terra encantada.

‘For Good’ enfrenta a difícil tarefa de concluir uma das sagas musicais mais adoradas dos últimos anos. Embora, em suas mais de duas horas, o filme tente corrigir falhas da história original( e sua clara diferença de tom ), o roteiro por vezes tropeça em momentos fundamentais. As principais mudanças se concentram em passagens emocionalmente potentes, permitindo que seus atores explorem melhor o próprio talento e ampliem o universo estabelecido na primeira parte, tudo isso sob a direção criativa de Jon M. Chu.

O poder político e a mensagem contra o autoritarismo tornam-se ainda mais palpáveis. A abordagem mantém a seriedade do mundo retratado (mesmo que nele existam animais falantes em vez de imigrantes ou minorias) e transforma a Cidade das Esmeraldas. Antes acolhedora e brilhante, ela agora se assemelha a uma capital distópica, com o Mágico surgindo como uma versão mais carismática do Grande Irmão. O longa também recontextualiza elementos imortalizados em O Mágico de Oz: por exemplo, a icônica estrada de tijolos amarelos, construída na cena inicial de maneira visualmente poluída, cria um paralelo com a exploração de trabalho escravo na expansão ferroviária dos Estados Unidos do século XIX. Pontos como esse permeiam o filme inteiro.

O elenco completo , com a inclusão de Colman Domingo como o Leão Covarde , retorna a Oz pela última vez. Cynthia Erivo entrega uma Elphaba mais irrequieta, porém mais verdadeira, com uma atuação precisa tanto nos momentos de fúria quanto nos raros instantes de leveza. Já Ariana Grande é o grande destaque: sua Glinda rompe a própria “bolha” — perdoe o trocadilho — e se reconecta ao que é certo, não ao que é popular. Muitos dos momentos mais emocionantes existem graças às suas reações. Grande surge como uma das favoritas ao Oscar de Atriz Coadjuvante e brilha ainda mais no papel, mesmo que sua persona de diva pop escape em alguns vocais.

O elenco coadjuvante apresenta altos e baixos. Michelle Yeoh retorna como Madame Morrible, oferecendo uma versão distinta de uma personagem tradicionalmente associada a prima-donas, mantendo-se ameaçadora e estoica — embora seja evidente, após décadas de carreira, que musicais não são seu terreno mais confortável. Jonathan Bailey continua como o charmoso, agora mais maduro, príncipe Fiyero, aproximando-o de um herói romântico à la Anthony bridgerton/”>bridgerton-gossip-girl-no-seculo-xix/”>Bridgerton. Jeff Goldblum surpreende como o carismático ditador, criando um vilão marcante. Ethan Slater e Marissa Bode brilham em cenas originais, dando profundidade a personagens frequentemente ignorados, como Boq e Nessarose, ofuscados no primeiro filme.

Quanto às músicas de Stephen Schwartz, o que esperar? As versões de “No Good Deed” e “For Good” devem emocionar até o público mais cético, com todos (exceto Michelle Yeoh) oferecendo ótimos vocais em canções divertidas, densas ou com significados ocultos. “No Place Like Home” e “Girl in the Bubble” destoam do restante da trilha, mas são interpretadas com vigor, emocionam e reforçam a possibilidade de Schwartz despontar na temporada de premiações.

No conjunto, o filme conclui a história de amizade que emocionou o mundo por décadas. Carrega consigo a reflexão de que, embora certas amizades não nos acompanhem até o fim, sempre teremos certeza de que fomos transformados por elas… não importa como.

Apesar de alguns buracos nessa nova estrada de tijolos amarelos, Wicked: For Good cumpre sua missão de adaptar o maior sucesso da Broadway. Ainda que não encante tanto quanto seu antecessor, funciona como uma carta respeitosa ao musical e, com grandes atuações, reforça a certeza de que Oz continuará sempre a um filme de distância… um lugar de escapismo para uns, de resistência para outros, mas que oferece sua magia musical para todos.