A Noiva do monstro de Frankenstein é uma das figuras mais reconhecíveis do cinema, tendo surgido como coadjuvante no clássico do terror Frankenstein. Interpretada originalmente por Elsa Lanchester, “A Noiva” tornou-se uma personagem popular por si só e, assim como seu noivo, evoluiu ao longo das décadas. É nesse contexto que surge ‘The Bride!’, segundo longa-metragem dirigido por Maggie Gyllenhaal. Estrelado por Jessie Buckley e Christian Bale, o filme apresenta uma reimaginação caótica da clássica história, prometendo dividir opiniões entre público e crítica.

Ambientada na Chicago da década de 1930, a trama acompanha a Criatura — agora conhecida simplesmente como “Frank” — que implora à cientista Cornélia Euphronious que crie para ele uma companheira. Juntos, eles ressuscitam uma jovem assassinada, dando origem à tão aguardada Noiva de Frankenstein. A partir desse momento, os dois monstros passam a enfrentar diversas desventuras pela América da Grande Depressão, testemunhando de perto as faces mais cruas do país. Enquanto isso, o detetive Jake Willes e sua assistente Myrna Malloy seguem o casal em uma perseguição que mistura investigação policial e espetáculo grotesco.

Diferente do clássico Bride of Frankenstein ou do recente épico gótico  Guillermo del Toro, o filme aposta em uma mistura de gêneros que não teme parecer absurda ou excêntrica. Essa escolha contrasta com o tom mais realista e intimista da estreia de Gyllenhaal na direção, ‘The Lost Daughter. Ao estabelecer referências narrativas e visuais com ‘Bonnie and Clyde’ e ‘Young Frankenstein’, o longa explora um subtexto raramente aprofundado nas adaptações do romance de Mary Shelley: o desejo do monstro de compartilhar sua existência com alguém e descobrir prazeres e experiências até então desconhecidos.

O roteiro, em seu deliberado descontrole, apresenta uma aventura frenética, repleta de momentos que tentam adquirir uma importância maior do que realmente possuem. Em meio a isso, surgem discussões sobre o poder feminino na década de 1930, diferentes formas de escapismo e a transformação involuntária da protagonista em uma espécie de figura revolucionária. Ainda que por vezes desordenado, o filme procura reafirmar a importância de Mary Shelley para o mito de Frankenstein, recorrendo a soluções visuais interessantes e a escolhas narrativas que ecoam diretamente ‘Bride of Frankenstein’.

Embora não seja exatamente um musical, The Bride! lembra, em certos momentos, a forma como a música e a dança funcionam como expressão emocional em ‘Joker: Folie à Deux’. Ambientado em uma época em que os grandes musicais dominavam o imaginário popular, o filme de Gyllenhaal presta homenagem a clássicos do gênero e aos primeiros anos do cinema. Essas referências surgem de maneira inteligente e frequentemente metalinguística, impulsionando a narrativa em momentos inesperados.

O maior destaque do longa é seu visual. A década de 1930 surge na tela ao mesmo tempo brilhante e decadente, sombria e devassa o suficiente para sustentar a mistura de gêneros proposta pela história. O submundo possui cores e texturas próprias, enquanto o design de produção transporta elementos do universo literário de Mary Shelley para o século XX. A caracterização do monstro mantém traços clássicos associados à figura de Frankenstein, mas é a Noiva quem realmente chama atenção: com cabelos platinados, manchas negras na pele e um vestido laranja vibrante, a personagem ganha uma identidade visual marcante.

Jessie Buckley — apontada por muitos como a favorita ao Oscar de Melhor Atriz em 2026 — entrega uma Noiva anárquica e imprevisível, repleta de tiques, gritos e momentos de estranheza física. Ainda assim, a atriz consegue conferir à personagem instantes de silêncio e solenidade que revelam uma sensibilidade inesperada. Sua performance lembra, em certos aspectos, a intensidade de sua interpretação de Sally Bowles na recente montagem  de ‘Cabaret’, que lhe rendeu um prêmio Olivier. Já Christian Bale, embora não tenha um papel tão impactante quanto em outros momentos de sua carreira, constrói um Frank suficientemente carismático para gerar empatia. No elenco de apoio, nomes como Annette Bening, Penélope Cruz e o próprio Jake Gyllenhaal aparecem como figuras visualmente marcantes, mas suas subtramas acabam sendo pouco desenvolvidas e, em alguns casos, simplesmente abandonadas.

No fim das contas, The Bride! é um filme ambicioso, irregular e deliberadamente estranho. Sua mistura de gêneros, referências e estilos pode soar excessiva para alguns espectadores, mas também revela uma tentativa genuína de reinventar um dos mitos mais duradouros da cultura popular. Ao transformar a Noiva em uma figura caótica, livre e quase revolucionária, Maggie Gyllenhaal propõe uma releitura que honra o legado de Mary Shelley enquanto experimenta novas possibilidades narrativas. O resultado talvez não seja perfeito, mas certamente é difícil de ignorar.