Em julho de 1918, a família imperial russa foi executada durante o auge da Revolução Russa. Com o fim do ramo principal da família Dinastia Romanov, nasceu uma das lendas mais persistentes do século XX — comparável, em fascínio popular, à busca pela identidade de serial killers ou aos mistérios que cercam o assassinato de John F. Kennedy: a suposta sobrevivência de Anastasia , uma das filhas do czar. Hoje se sabe que a jovem não escapou e teve o mesmo destino trágico de seus pais e irmãos. Ainda assim, o mito não perdeu força na cultura popular. Diversos filmes foram produzidos recontando essa lenda, entre eles o drama que marcou o retorno de Ingrid Bergman às telas. A atriz havia sido praticamente banida de Hollywood devido à onda conservadora que tomou os Estados Unidos no pós-guerra, após o escândalo envolvendo seu relacionamento com o diretor Roberto Rossellini. Longe do grande circuito hollywoodiano por anos, foi justamente com esse melodrama emblemático que Bergman reencontrou o público e reabriu as portas da indústria.

O filme ‘Anastasia’ combina romance, intriga política e uma das interpretações mais celebradas da história do cinema. A trama se passa na década de 1920, quando rumores ainda persistiam de que Anastásia teria sobrevivido à execução da família Romanov em 1918. Em Paris, um grupo de exilados russos — desesperado para recuperar uma herança milionária depositada em bancos europeus — decide apresentar ao mundo uma mulher como sendo a grã-duquesa sobrevivente. Essa mulher é Anna Koreff, uma figura frágil, misteriosa e aparentemente desequilibrada, encontrada à beira do suicídio as margens do Sena. O plano consiste em treiná-la, moldá-la e ensiná-la a agir como uma Romanov.

A interpretação de Bergman foi amplamente celebrada, rendendo-lhe o Oscar de Melhor Atriz e marcando um retorno triunfal a Hollywood após anos de ostracismo, mesmo que sua relação com os EUA nunca tenha sido a mesma . A vitória foi vista como uma espécie de reconciliação simbólica da indústria com uma estrela que havia sido duramente condenada pela opinião pública americana nos anos anteriores.

O enredo do filme apresenta semelhanças com o clássico animado ‘Anastasia‘, dirigido por Don Bluth. Apesar do mesmo ponto de partida narrativo, os dois longas possuem contextos distintos e interpretações ligeiramente ambíguas, revisitando o mito de Anastásia sob perspectivas diferentes. Sem recorrer a elementos fantásticos — como a figura demoníaca de Grigori Rasputin ou morcegos albinos —, o filme de 1956 constrói um drama mais contido e psicológico. Já a animação de 1997 abraça o espetáculo e o tom de conto de fadas.

Quando o filme de 1956 foi lançado, a crença popular de que a grã-duquesa teria sobrevivido ainda existia, embora já estivesse perdendo força. O drama constrói um questionamento agridoce: Anna é realmente Anastásia ou apenas uma farsante convincente abandonada pelo mundo? A animação de Bluth resolve esse dilema de forma mais direta e otimista. Nela, nunca se duvida de que a órfã — dublada por Meg Ryan — é de fato integrante da família imperial russa; seus lapsos de memória são explicados por uma amnésia causada na infância, quando fugiu do cerco proletário . Curiosamente, ambos os roteiros foram inspirados na história real de Anna Anderson, a mais famosa impostora que afirmou ser a grã-duquesa.

A relação entre Anastásia, o general Bounine — interpretado por Yul Brynner — e Dimitri acrescenta uma dimensão romântica à narrativa, desenvolvida de maneira semelhante nas duas adaptações. Inicialmente movidos por interesses financeiros, os homens acabam se envolvendo emocionalmente com a mulher que deveria ser apenas uma peça em um golpe cuidadosamente planejado. O romance no filme de 1956 se desenvolve em meio a tensões políticas e familiares, especialmente no confronto final que coloca à prova a identidade da protagonista.

Um dos elementos mais marcantes em ambas as adaptações é a forma como a imperatriz-viúva Maria Feodorovna é retratada. No filme de 1956, ela é interpretada por Helen Hayes; na animação de 1997, ganha a voz de Angela Lansbury. Maria representa a última guardiã  da memória da família Romanov, constantemente exposta a farsas e à dor de reviver o passado. Hayes oferece uma interpretação marcada pela dignidade e pela contenção emocional, enquanto a voz de Lansbury transmite carinho e uma ternura que lentamente se reacende. Em ambos os filmes, o momento em que a avó reconhece sua neta — ou acredita reconhecê-la — constitui um dos pontos mais comoventes da narrativa.

Do ponto de vista estético, Anastasia (1956) reflete o refinamento visual dos grandes dramas da década de 1950. Os figurinos evocam a elegância aristocrática perdida, enquanto a ambientação europeia — salões luxuosos, hotéis sofisticados e estações ferroviárias — cria uma atmosfera de nostalgia melancólica. A Rússia imperial quase nunca aparece diretamente; ela é sempre evocada como memória. Já na animação, muitas vezes acusada por espectadores contemporâneos de romantizar a monarquia, o glamour e a opulência da dinastia Romanov são mostrados com maior exuberância, especialmente na sequência musical ‘Once Upon a December’, um dos momentos mais memoráveis do filme. A animação também destaca o papel cultural de Paris durante os chamados “loucos anos 20”.

Ambos os filmes tratam com cautela a representação da Revolução Bolchevique e da União Soviética. No filme de 1956, os diálogos abordam o regime com certo distanciamento e até um toque de ironia — como na observação mordaz sobre um pelotão de fuzilamento tão incompetente que surpreende o fato de a revolução ter dado certo. Já a animação, lançada após o colapso do bloco soviético, retrata a vida em Leningrado como marcada por poucas mudanças, privilegiando mais o tom de aventura e fantasia do que o comentário político.

Historicamente, sabe-se hoje que Anastásia não sobreviveu ao massacre da família imperial. Assim, ambos os Anastasias são menos sobre a Rússia em si e mais sobre a necessidade humana de imaginar um desfecho diferente para uma tragédia histórica — a possibilidade, ainda que fictícia, de que uma adolescente tenha escapado à brutalidade da história.

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