Lançado em 1980, ‘9 to 5‘ é uma das comédias mais emblemáticas do cinema norte-americano misturando diferentes assuntos : mercado de trabalho, machismo estrutural e libertação feminina. Dirigido por Colin Higgins, o filme transforma o ambiente sufocante de um escritório corporativo em um ambiente satírico, onde três mulheres, subestimadas e exploradas, decidem inverter a lógica de poder que as oprime. O resultado é uma obra divertida, politicamente afiada e surpreendentemente atual.
A trama acompanha Violet Newstead , funcionária competente e experiente que é constantemente preterida em promoções; Doralee Rhodes , secretária eficiente que sofre assédio e comentários misóginos por sua aparência; e Judy Bernly , recém-divorciada e inexperiente no mercado de trabalho. As três trabalham sob o comando de Franklin Hart Jr. chefe autoritário, incompetente e profundamente sexista. As mulheres acabam formando uma improvável amizade e se metendo em algumas confusões quando conversas de bar e a insatisfação com o chefe se misturam
O filme nasce em um contexto histórico específico: o avanço da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos, as transformações no mercado de trabalho e o aumento da presença feminina em ambientes corporativos. “9 to 5” captura esse momento com inteligência ao transformar frustração cotidiana em fantasia de revanche. Mas o roteiro vai além…
Quando as três mulheres acabam, acidentalmente, sequestrando o chefe e assumindo o controle do escritório, o filme realiza uma virada interessante: a utopia organizacional. Sob a liderança delas, o ambiente corporativo se transforma em um ambiente de trabalho mais agradavel pada todos. . O que poderia ser apenas uma comédia leve se converte em comentário social incisivo. O humor nunca abandona a narrativa, mas serve como instrumento crítico.
A química entre as protagonistas é um dos grandes trunfos da obra. Lily Tomlin constrói Violet com ironia sutil e inteligência ácida; Jane Fonda imprime vulnerabilidade e progressiva autoconfiança a Judy; e Dolly Parton — em sua estreia no cinema — rouba cenas com carisma natural e timing cômico impecável. A presença de Parton é particularmente significativa: sua Doralee, inicialmente reduzida a estereótipos por causa de sua sexualidade performática, revela-se a mais pragmática e emocionalmente generosa do trio. A personagem desmonta o olhar masculino que a objetifica.
A música-tema, também intitulada 9 to 5, composta e interpretada por Dolly Parton, tornou-se um hino sobre a rotina exaustiva do trabalhador comum. Com seu ritmo animado e letra mordaz, a canção sintetiza o espírito do filme: a crítica ao sistema corporativo é embalada em leveza pop, tornando a mensagem acessível e contagiante. A música ultrapassou o longa-metragem e consolidou-se como símbolo cultural da luta por melhores condições de trabalho, sendo indicada ao Oscar de Melhor Cancao Original.
Esteticamente, “9 to 5” é marcado pela leveza visual típica das comédias de estúdio do final dos anos 1970 e início dos 1980. A fotografia clara e os cenários de escritório quase padronizados reforçam a ideia de uniformidade e anonimato do ambiente corporativo. Esse espaço neutro contrasta com a energia vibrante das protagonistas, que gradualmente reconfiguram aquele universo rígido.
Embora alguns elementos hoje possam parecer datados — tanto em figurino quanto em certas piadas — o núcleo temático permanece relevante. Questões como desigualdade salarial, assédio moral e sexual, invisibilização do trabalho feminino e conciliação entre vida profissional e pessoal continuam centrais no debate contemporâneo. Nesse sentido, “9 to 5” não é apenas um produto de sua época, mas uma obra que antecipou discussões que seguem urgentes. O filme equilibra comédia pastelão e crítica social com habilidade rara. Ele não se torna panfletário, mas também não dilui sua denúncia. O riso surge do absurdo da situação, mas o absurdo é sustentado por uma realidade reconhecível. Ao final, o que permanece é a sensação de que a fantasia de revolução cotidiana talvez não seja tão fantasiosa assim.
Mais de quatro décadas após seu lançamento, “9 to 5” continua sendo referência cultural, seja por sua influência em narrativas sobre o ambiente corporativo, seja por seu papel na representação feminina no cinema mainstream.
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