Roald Dahl foi responsável por apresentar crianças a mundos fantásticos e personagens igualmente mágicos, com obras como ‘Matilda’, ‘James e o Pêssego Gigante’ e ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’. Entre suas histórias mais emblemáticas está ‘Convenção das Bruxas’, frequentemente associada ao Dia delas. Com duas adaptações cinematográficas, lançadas com trinta anos de diferença, a obra carrega uma atmosfera surpreendentemente pesada e desconfortável, considerando seu público-alvo.
Na trama, um menino órfão, agora sob os cuidados da avó, passa alguns dias em um hotel de luxo. Nesse mesmo local, uma legião de bruxas se reúne secretamente para decidir o fim de todas as crianças do mundo. Transformado em rato por essas criaturas das trevas, o menino e sua avó precisam encontrar uma maneira de impedir esse plano diabólico.
A primeira adaptação cinematográfica, lançada em 1990 e dirigida por Nicolas Roeg, é considerada um clássico cult do terror infantil. Já o remake de 2020, sob direção de Robert Zemeckis, tentou atualizar a estética e o discurso, mas não conseguiu capturar o mesmo misto de fascínio e pavor da produção original. A narrativa aposta no medo como ferramenta de formação, adicionando aspectos de sobrevivência, típica dos contos de fadas tradicionais. No universo de ‘Convenção das Bruxas’, as bruxas se organizam como executivas corporativas, representantes de um mal calculado, higienizado e sorridente.
Com produção de Jim Henson, mestre dos efeitos práticos e animatrônicos, o longa de 1990 tem como ponto alto a interpretação de Anjelica Huston como a Grande Bruxa. Sua performance equilibra elegância, sadismo e teatralidade em doses que a tornam uma vilã memorável, simultaneamente fascinante e aterrorizante. O design de maquiagem — com unhas longas, rostos desfigurados sob máscaras humanas e vozes sibilantes — não poupa no grotesco, impactando profundamente o público infantojuvenil com imagens perturbadoras.
Visualmente, o filme se ancora em elementos do expressionismo. A ambientação do hotel, repleto de corredores labirínticos, espelhos e tapeçarias densas, remete a um mundo onde o real e o fantástico se entrelaçam constantemente. E como toda boa fábula sombria, seu impacto reside não apenas nas criaturas, mas na inquietante dúvida: quem são as bruxas do nosso mundo? Como identificá-las quando suas máscaras são tão bem feitas
Três décadas depois, a Warner Bros lançou uma nova adaptação, desta vez com direção de Robert Zemeckis, produção de Guillermo del Toro e Anne Hathaway no papel da Grande Bruxa. A proposta era atualizar a narrativa para um público contemporâneo, deslocando a ação para o sul dos Estados Unidos na década de 1960 e transformando o protagonista em um menino negro. Com isso, a nova ‘Convenção das Bruxas’ busca agregar uma camada racial e social à trama, refletindo sobre opressões sistêmicas que extrapolam a infância.

No entanto, apesar das boas intenções e da ambição estética, o filme sofre com o uso excessivo de efeitos visuais digitais, o que empobrece a experiência sensorial e reduz o impacto do grotesco. A artificialidade das imagens suaviza a sensação de ameaça que tornava a versão original tão marcante.
‘Convenção das Bruxas’, seja na versão de 1990 ou na de 2020, continua sendo uma obra provocadora ao evocar o terror e o grotesco como parte da formação emocional e moral do públicoinfantojuvenil, a história mantém sua relevância — e sua inquietação — mesmo décadas após sua criação.

