Desde o sucesso consolidado do Universo Cinematográfico Marvel, não foi surpresa que diversos estúdios de Hollywood tentassem emular essa fórmula, planejando seus próprios universos compartilhados com filmes interconectados e narrativas expansivas. A FOX, em uma tentativa — antes e depois de sua aquisição pela Disney — buscou desenvolver um universo centrado em um dos maiores detetives da ficção e nas obras da mais célebre autora de mistério da literatura moderna: Agatha Christie.

Sob a direção de Kenneth Branagh e baseados em alguns dos maiores sucessos de Christie, esses filmes formaram uma franquia improvável, com altos e baixos. Os obstáculos vão desde roteiros excessivamente seguros e elencos problemáticos até a dificuldade de compreender plenamente o espírito das obras originais. Soma-se a isso o desafio de revisitar histórias já adaptadas anteriormente com elencos lendários e diretores consagrados. Obras como Assassinato no Expresso do Oriente, de 1974, contavam com Lauren Bacall, Ingrid Bergman — que ganhou seu terceiro Oscar pelo papel —, enquanto Morte no Nilo, de 1978, reunia nomes como Bette Davis, Maggie Smith e Angela Lansbury.

Assassinato no Expresso do Oriente

A franquia de Branagh teve início com Assassinato no Expresso do Oriente (2017), em que Hercule Poirot embarca em uma luxuosa viagem de trem cercado por passageiros excêntricos. Durante uma nevasca, um deles é brutalmente assassinado, e o detetive se vê diante de um mistério onde todos os presentes têm motivos plausíveis para cometer o crime.

Dirigido e estrelado por Branagh, o filme contou com um elenco de peso: Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer, Johnny Depp, Judi Dench, Olivia Colman, Daisy Ridley, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz e Leslie Odom Jr. O lançamento, no entanto, coincidiu com um momento turbulento da carreira de Depp, que enfrentava o início de seu conturbado divórcio com Amber Heard. Ainda assim, as dinâmicas entre os personagens são bem construídas, gerando tensão tanto para Poirot quanto para o público.

Embora tecnicamente competente, a adaptação de 2017 é considerada dispensável frente à versão de 1974. Apesar do visual refinado e do elenco estelar, a nova versão carece da atmosfera densa e envolvente da adaptação anterior. O clímax, revelando o assassino, funciona bem para os não iniciados na obra original, oferecendo um veículo inesperado para talentos dramáticos pouco explorados, como Josh Gad. No fim, trata-se de uma adaptação sólida, porém inofensiva, que termina com uma deixa para o capítulo seguinte.

Morte no Nilo

A recepção de Morte no Nilo (2022) foi consideravelmente mais morna, em grande parte por conta de seu elenco controverso: Gal Gadot dividia opiniões por declarações políticas; Armie Hammer havia sido acusado de abuso e canibalismo; Letitia Wright e Russell Brand manifestavam visões antivacina — tudo isso em um set pré-pandemia.

Na trama, Poirot embarca em um cruzeiro pelo rio Nilo, onde a rica herdeira Linnet é assassinada, e um valioso colar desaparece. Todos a bordo têm motivações questionáveis: comunistas exóticas, cantoras ressentidas, amigas traídas. Conforme os corpos se acumulam, Poirot precisa agir rapidamente.

O filme sofreu com o uso excessivo de CGI, tentativas forçadas de modernização e uma protagonista com desempenho insosso. A experiência, por fim, se mostrou esquecível, sem deixar marcas duradouras no público.

Apesar das falhas, há mérito em algumas atuações do elenco coadjuvante: Annette Bening, Letitia Wright e Sophie Okonedo buscam dar densidade a personagens unidimensionais; Jennifer Saunders e Dawn French trazem leveza e uma surpresa de teor sáfico. A direção de arte, com uso expressivo de cores quentes e ângulos criativos, dá uma identidade visual distinta à obra.

A Noite das Bruxas

Após o banho de água morna de Morte no Nilo, Branagh ousou com A Noite das Bruxas (2023), uma adaptação livre de A Mansão Hollow. O filme trocou o glamour tradicional por um suspense gótico, atmosférico e mais sombrio, conquistando melhores críticas e uma bilheteria sólida. Parte desse sucesso deve-se à presença de Kelly Reilly, popularizada em Yellowstone, e de Michelle Yeoh, à época vencedora do Oscar.

Poirot, agora aposentado, é convidado por sua amiga Ariadne Oliver para uma sessão mediúnica em uma festa de Halloween. Envolvido por personagens traumatizados e ambíguos — uma mãe em luto, um médico veterano, um noivo melancólico e uma médium misteriosa — Poirot precisa desvendar um assassinato cercado de elementos sobrenaturais.

Diferente dos filmes anteriores, este mergulha em um terror psicológico com atmosfera sufocante, reminiscente do horror europeu. A trilha sonora de Hildur Guðnadóttir intensifica esse clima. Michelle Yeoh entrega uma atuação magnética, enquanto Tina Fey surpreende em um papel mais sóbrio. Embora infiel ao texto original de Christie, a liberdade criativa permitiu uma reinvenção ousada, que agradou especialmente aos que buscam suspense com nuances sobrenaturais.

O universo cinematográfico de Agatha Christie, comandado por Kenneth Branagh, é uma tentativa ambiciosa de introduzir clássicos da literatura policial a novas gerações. Mesmo com tropeços — causados por escolhas de elenco, fidelidade discutível às obras e decisões criativas questionáveis — a franquia mostrou fôlego, especialmente quando arriscou sair da fórmula esperada. O futuro permanece incerto, mas há potencial: o presidente da 20th Century Studios já demonstrou interesse em continuar adaptando casos de Poirot e, quem sabe, introduzir Miss Marple ao grande público. Se houver coragem para equilibrar reverência ao material original com inovação verdadeira, esse universo ainda pode se tornar um legado digno do nome Christie.

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