Filmes com teor autobiográfico ambientados na Segunda Guerra Mundial sempre foram um prato cheio para Hollywood. Obras como ‘O Pianista’ e tantas outras abordam o Holocausto e a repressão política promovida pelos nazistas de maneira singular, explorando tanto o horror coletivo quanto os dramas íntimos de seus personagens. Entre as muitas figuras que buscaram transformar em narrativa suas experiências durante um dos períodos mais sombrios da história está Lillian Hellman
A história de “Julia” acompanha a própria Hellman, retratada como uma escritora americana que, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, ajuda sua amiga de infância Julia a contrabandear dinheiro para a resistência austríaca, salvando judeus e dissidentes políticos do avanço nazista.
O impacto foi imediato: o filme recebeu onze indicações ao Oscar e venceu três, consolidando-se como um drama político respeitável e emocionalmente poderoso. Sustentado por atuações contidas e intensas, o longa encontra sua força na presença magnética de Redgrave, cuja performance lhe rendeu o Oscar. Há uma sobriedade na encenação, que contrasta com a tensão moral da trama e reforça o peso das escolhas individuais diante do fascismo.
Para entender o peso dessa narrativa, é preciso compreender quem foi Lillian Hellman. Dramaturga consagrada, responsável por obras como ‘The Children’s Hour’ e ‘The Little Foxes’, Hellman construiu uma reputação de mulher combativa, intelectualmente afiada e politicamente engajada. Durante o Macarthismo, tornou-se símbolo de resistência ao se recusar a delatar colegas ao Comitê de Atividades Antiamericanas, gesto que a alçou a um patamar quase mítico nos círculos progressistas. Já nas décadas de 1960 e 1970, Hellman se reinventou como memorialista, publicando livros que não apenas revisitavam sua vida, mas a reposicionavam como uma figura moralmente íntegra, sempre presente nos grandes embates éticos do século XX.
É nesse ponto que a história começa a ruir. Após a publicação de ‘Pentimento’ e o lançamento de ‘Julia’, uma psicanalista chamada Muriel Gardner percebeu algo inquietante: a vida da personagem Julia era, em detalhes cruciais, idêntica à sua própria. Muriel vinha de uma família rica, estudara em Oxford, mudara-se para Viena para estudar psicanálise com Freud, teve uma filha e atuou ativamente na resistência austríaca sob o codinome “Mary”. O detalhe mais curioso dessa descoberta era simples e irrefutável: Muriel Gardner e Lillian Hellman nunca se conheceram.
Investigações subsequentes revelaram que não havia registros de outra mulher americana com esse perfil atuando na resistência austríaca naquele período. A conclusão parecia inevitável: Hellman teria se apropriado da vida de Muriel Gardner e a reescrito como uma lembrança pessoal, deslocando-se para o centro de uma história que nunca viveu.
À medida que jornalistas e historiadores passaram a examinar minuciosamente o relato de Hellman, as inconsistências se multiplicaram. Horários de trens descritos por ela simplesmente não existiam; ruas e locais mencionados não constavam em mapas da época; e membros reais da resistência consideraram a logística do suposto contrabando descrito por Hellman amadora, ingênua e, em muitos casos, completamente impossível. A hipótese mais aceita é que Hellman tenha ouvido a história de Muriel por meio de um conhecido em comum, o advogado Wolf Schwabacker, e decidido incorporá-la às suas memórias como se fosse sua.
O escândalo ganhou contornos públicos e irreversíveis quando a escritora Mary McCarthy, em um programa de televisão, disparou a frase que se tornaria infame: “Cada palavra que Lillian Hellman escreve é uma mentira, incluindo ‘e’ e ‘o’.” Ferida em sua imagem, Hellman respondeu com um processo por difamação no valor de 1,7 milhão de dólares. O caso se arrastou até sua morte, em 1984, sem nunca ser resolvido, deixando uma sombra permanente sobre seu legado literário.
Hellman possuía uma necessidade quase patológica de se enxergar — e de ser vista — como uma heroína moral, alguém indispensável nos momentos decisivos da história. Suas mentiras não giravam em torno de vaidades banais, mas de grandes causas: antifascismo, coragem política, integridade ética. Ao falsear sua própria trajetória, Hellman parecia tentar se tornar a mulher que gostaria de ter sido, usando a não-ficção como instrumento de autoexaltação e julgamento moral dos outros.
Assim, Julia permanece como algo divisivo cultural: um filme poderoso, construído sobre uma mentira cuidadosamente elaborada. Sua existência levanta questões incômodas sobre memória, autoria e até que ponto estamos dispostos a aceitar a ficção quando ela se veste de verdade — especialmente quando confirma nossos heróis e nossas narrativas favoritas.

