Lançado em 2019, “Us’ é o segundo longa-metragem do diretor, roteirista e produtor Jordan Peele, que já havia chamado a atenção do mundo com o aclamado ‘Get Out’ (2017), obra que lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original e diversas indicações na mesma edição. Com ‘Us’, Peele reafirma sua habilidade em utilizar o terror psicológico e o suspense como ferramentas para explorar questões sociais profundas. O filme combina elementos do horror clássico a uma densa carga simbólica, propondo uma reflexão sobre identidade e a dualidade do ser humano.
A trama gira em torno da família Wilson, que decide passar férias em uma casa de veraneio em Santa Cruz, Califórnia, onde a matriarca, Adelaide, sente-se inexplicavelmente desconfortável. A aparente tranquilidade do passeio é interrompida quando quatro figuras misteriosas aparecem à porta da casa durante a noite. Logo, os Wilson descobrem que estão sendo perseguidos por seus próprios sósias — versões distorcidas de si mesmos, dotadas de habilidades sobre-humanas e totalmente desprovidas de empatia.
Jordan Peele constrói ‘Us’ como uma alegoria multifacetada sobre identidade e individualismo, recorrendo a teorias conspiratórias para tornar a narrativa ainda mais fascinante. Um dos símbolos mais marcantes é a própria dualidade representada pelas cópias: seres fisicamente idênticos, mas emocionalmente incapazes, que reproduzem as ações de seus “originais” de forma grotesca. Essa oposição cria uma poderosa metáfora sobre desigualdade social e invisibilidade.
O longa apresenta uma crítica direta à sociedade americana. A ideia de que há uma parte da população que vive “debaixo” da outra — literalmente nos subterrâneos — evidencia um comentário social sobre as classes marginalizadas e o custo humano da prosperidade de poucos. ‘Us’ pode ser interpretado como uma crítica ao mito do “sonho americano”. Enquanto a família Wilson representa aqueles que alcançaram um certo nível de conforto dentro da estrutura social, seus sósias simbolizam os que foram deixados para trás. Ambos os grupos compartilham a mesma essência, mas tiveram oportunidades radicalmente diferentes.
Peele também questiona a identidade nacional dos Estados Unidos, sugerindo que a grandeza do país foi construída sobre os ombros dos esquecidos — algo evidente quando revisitamos a própria história norte-americana. A organização dos ‘Tethered’, que formam uma corrente humana de mãos dadas no clímax do filme (recriando o evento real Hands Across America, de 1986), ironiza iniciativas simbólicas que ignoram problemas estruturais profundos.
Do ponto de vista técnico, ‘Us’ carrega a marca autoral de Peele. A direção é precisa, explorando a tensão por meio de planos simétricos, uma trilha sonora inquietante e uma fotografia que enfatiza o contraste entre luz e sombra, refletindo o conflito entre os mundos de cima e de baixo. O uso de símbolos, como o dos coelhos, reforça a ideia de que o problema retratado é muito maior do que aparenta.
A atuação de Lupita Nyong’o é um dos grandes destaques da obra: ela interpreta tanto Adelaide quanto sua versão subterrânea, Red, com complexidade impressionante. Sua performance — ao mesmo tempo sutil e poderosa — carrega o peso emocional do filme e contribui decisivamente para o impacto da reviravolta final.
A montagem também merece menção. As transições entre os diferentes espaços — principalmente entre o mundo da superfície e o subterrâneo — são feitas com fluidez e reforçam a noção de que ambos os mundos estão conectados de forma indissociável, ainda que um permaneça invisível ao outro. Além disso, cenas em que Adelaide e Red (ambas interpretadas por Lupita) interagem são feitas com edição afiada e direção potente
‘Us” é uma obra instigante que transcende os limites do gênero de terror para se afirmar como uma crítica social densa e multifacetada. Jordan Peele utiliza a linguagem do horror não apenas para provocar medo, mas para despertar reflexão. O filme é um espelho incômodo da sociedade contemporânea, revelando que o verdadeiro inimigo muitas vezes habita dentro de nós — ou, mais precisamente, é o “nós” coletivo que escolhe ignorar os outros de si mesmo.

