Kevin Williamson, você errou e errou feio. Não existe outra forma de começar a falar sobre Pânico 7 (2026) sem apontar o dedo diretamente para quem deveria ser o guardião do legado de Wes Craven, mas preferiu entregar uma obra covarde e sem alma. O filme acompanha Sidney Prescott (Neve Campbell), agora oficialmente Sidney Evans, vivendo uma vida aparentemente pacata com seu marido Mark Evans fora de Woodsboro. O personagem agora é interpretado por Joel McHale, que parece estar em um set de comédia e não de horror, e aqui finalmente a Spyglass provou que não entende nada de horror. O roteiro tenta criar um clima de urgência, mas o que entrega é um pacote de personagens rasos, como a nova protagonista Tatum Evans (Isabel May), filha mais velha de Sidney, que é basicamente uma batata humana em forma de final girl sem qualquer carisma ou instinto de sobrevivência.

A produção é o resultado direto de um inferno de desenvolvimento que quase enterrou o projeto. Depois da demissão covarde de Melissa Barrera em 2023 por defender direitos humanos e da saída de Jenna Ortega em solidariedade ética, o filme precisou ser costurado às pressas. O resultado é um ritmo completamente corrido que não dá tempo para o espectador processar as informações ou se importar com quem morre. A cena de abertura, que costumava ser a atração da franquia, é uma decepção absoluta que não se amarra com a narrativa principal e falha em estabelecer qualquer tensão real. As mortes são exageradas no gore, mas o sangue jorra sem peso emocional. Simplesmente ninguém consegue se conectar com os novos rostos, que acabam sendo apenas sacos de carne descartáveis esperando a lâmina do Ghostface.
A única personagem que realmente brilha, ainda que por pouco tempo, é Hannah (McKenna Grace). Ela é a única amiga da Tatum que demonstra ter algum carisma em cena (mesmo sendo literalmente içada), especialmente na sequência do teatro, que é o único momento do filme onde a direção parece lembrar que Pânico costumava ter estilo. Infelizmente, Hannah morre rapidamente, deixando o público preso ao resto do elenco, que é completamente sem sal. O filme se leva a sério demais e esquece que a alma da franquia sempre foi o humor ácido e a metalinguagem afiada. Até mesmo a tentativa de colocar Chad (Mason Gooding) e Mindy (Jasmin Savoy Brown) como alívio cômico para fecharem um ciclo foi algo que funcionou temporariamente, deixando a presença de ambos meio jogada na narrativa. Aqui, o meta-comentário é praticamente inexistente, transformando o que deveria ser uma desconstrução do horror em um slasher genérico de quinta categoria.

A questão dos assassinos é o ponto onde o roteiro explode de vez. Pânico sempre teve vilões com motivações que, por mais insanas que fossem, faziam sentido dentro do contexto da vida do protagonista. Em Pânico 7, os assassinos são literalmente “desconhecidos” sem nexo algum com a história direta da Sidney. É um balde de água fria ver a revelação final e perceber que o mistério não levou a lugar nenhum. A motivação é nula e quebra toda a lógica estabelecida desde 1996. É frustrante notar que a Spyglass preferiu focar na exclusão de atrizes politizadas do que em manter a consistência narrativa ao expulsar as irmãs Carpenter, que eram o verdadeiro sangue novo que a saga precisava.
Para piorar a situação, o uso de tecnologia de inteligência artificial no filme é ridículo. O uso do deepfake para reviver velhos personagens é mal executado, beirando o amadorismo narrativo, e mostra que quem estava por trás da produção não entendia o básico da ferramenta que estava tentando mostrar. É algo constrangedor de se assistir em uma tela de cinema em 2026. A filmografia até tenta ser correta, mas não chega nem perto do trabalho visual superior que vimos em Pânico 6. O filme não tem uma crítica clara e todos os recursos técnicos parecem mal explorados, servindo apenas para tentar mascarar a falta de ideias de um roteiro brochante.
O retorno de Sidney e Gale Weathers (Courteney Cox) é o único elemento magnético que ainda consegue prender o espectador na poltrona. Neve Campbell e Courteney Cox carregam o filme nas costas com uma dignidade que a produção não merece (e isso contando com o fato que a Gale desaparece no último ato). É nítido que elas são as únicas peças que funcionam, mas nem mesmo o carisma delas é capaz de salvar um barco que já saiu do porto furado. Estive tweetando durante o filme de tanta revolta e tédio, algo que nunca imaginei fazer em um filme dessa franquia. A ausência de Melissa e Jenna é sentida em cada frame, e o fato de elas terem mantido sua ética intacta fora das telas é o único consolo para quem respeita o que elas construíram nos dois filmes anteriores.

O filme é covarde porque não tem coragem de assumir uma posição ou de inovar. Ele se escora em uma nostalgia vazia que não se sustenta quando os créditos começam a subir. É um desrespeito com os fãs assíduos e com os personagens originais. Kevin Williamson, que já foi o mestre da metalinguagem, agora parece um espectador confuso da própria criação. O declínio é tão acentuado que fica difícil até comparar com os antecessores, pois o nível de superficialidade aqui é banal demais para os padrões de Woodsboro. Até o terceiro filme, que sempre foi o patinho feio da saga, parece uma obra-prima perto deste desastre sem alma.
O prego no caixão
Não vale a pena ir ao cinema assistir isso. É um desperdício de dinheiro e de tempo que só vai gerar frustração para quem realmente ama a franquia. Se você faz questão de ver para completar a saga, é melhor esperar sair em streaming para assistir no conforto de casa. Pânico 7 é covarde, sem alma e representa o desrespeito máximo com o legado de Woodsboro. Finja que a franquia acabou no excelente sexto filme e poupe seu fígado.

