A trilogia Le Tre Madri ocupa um lugar singular dentro da filmografia de Dario Argento e, de modo mais amplo, na história do giallo e do cinema de horror. Formada por Suspiria (1977), Inferno (1980) e La Terza Madre (2007), a série não se organiza como uma narrativa linear tradicional, mas como um tríptico mitológico, sensorial e simbólico. Cada filme se constrói como uma variação estética e temática sobre o mesmo núcleo conceitual: a existência de três bruxas ancestrais — Mater Suspiriorum, Mater Tenebrarum e Mater Lachrymarum — entidades arquetípicas que governam o sofrimento humano a partir de cidades distintas e espaços arquitetônicos carregados de maldição.
Desde sua origem, a trilogia nasce de uma fusão improvável entre o horror moderno e o ocultismo clássico. Argento e sua então companheira e colaboradora criativa, Daria Nicolodi, beberam diretamente do ensaio Suspiria de Profundis (1845), de Thomas De Quincey, no qual o autor descreve poeticamente três “Mães” sobrenaturais associadas à dor, à escuridão e ao lamento. Argento transpõe essa mitologia literária para o cinema não como adaptação fiel, mas como uma reinvenção estética radical, na qual o terror não se manifesta apenas pela narrativa, mas sobretudo pela imagem, pelo som e pela cor.
‘Suspiria‘, o primeiro capítulo, apresenta Mater Suspiriorum, a Mãe dos Suspiros, instalada em uma academia de dança em Freiburg, na Alemanha. Aqui, Argento abandona qualquer compromisso com o realismo. O filme é uma experiência sensorial extrema, como um pesadelo ,marcada por cores primárias saturadas, iluminação artificial expressionista e uma trilha sonora hipnótica do grupo Goblin. O espaço da escola funciona como um organismo vivo, labiríntico e hostil, onde a lógica arquitetônica se dissolve em corredores infinitos, portas secretas e quartos que parecem existir fora do tempo. A protagonista, Suzy Bannion, não é uma heroína tradicional, mas um corpo estrangeiro que atravessa esse pesadelo cromático até alcançar a revelação final. o horror não está apenas nos assassinatos estilizados ou na presença da bruxa, mas na própria sensação de desorientação constante. Argento transforma o espaço em ameaça, e a narrativa em ritual. O mal não precisa ser compreendido; ele precisa ser sentido. Essa abordagem aproxima o filme de um cinema quase abstrato, no qual o enredo serve como fio condutor para uma experiência audiovisual profundamente física.
‘Inferno’, o segundo capítulo, amplia esse universo ao apresentar Mater Tenebrarum, a Mãe das Trevas, instalada em Nova York. Se Suspiria é dominado pelo excesso cromático e pelo artificialismo, Inferno aposta em uma atmosfera mais líquida, soturna e fragmentada. O filme se estrutura como uma sucessão de episódios quase desconectados, nos quais personagens transitórios descobrem pistas sobre as bruxas apenas para serem brutalmente eliminados. Aqui, Argento abandona de vez qualquer pretensão narrativa clássica e mergulha em um cinema de imagens puras, no qual a lógica do sonho substitui a causalidade.
A arquitetura volta a ser central. Prédios antigos escondem bibliotecas secretas, salões submersos e passagens ocultas que revelam a presença de Mater Tenebrarum. A famosa sequência subaquática — em que uma personagem mergulha em uma sala inundada — sintetiza perfeitamente o espírito de Inferno: belo, absurdo, claustrofóbico e profundamente irreal. O terror nasce do confronto entre o humano e forças ancestrais que não podem ser derrotadas por meios racionais. No entanto, é também em Inferno que a trilogia começa a revelar suas fissuras. A ausência de uma protagonista forte e a fragmentação extrema afastaram parte do público, ainda que o filme tenha sido posteriormente reavaliado como uma das obras mais ousadas de Argento.
La Terza Madre, lançado quase trinta anos depois, encerra a trilogia de maneira controversa. Ambientado em Roma, o filme apresenta Mater Lachrymarum, a Mãe das Lágrimas, despertada a partir de uma relíquia antiga. Diferentemente dos capítulos anteriores, este terceiro filme tenta estabelecer uma narrativa mais convencional, com uma protagonista claramente definida e uma progressão dramática mais tradicional. O resultado, no entanto, é ambíguo.
Se por um lado La Terza Madre recupera elementos clássicos do universo de Argento — violência gráfica, referências ocultistas, bruxaria e caos urbano —, por outro perde parte da sofisticação estética que tornava Suspiria e Inferno experiências únicas. A fotografia digital, a montagem mais acelerada e a dependência excessiva de diálogos explicativos enfraquecem o mistério que sempre foi central à trilogia. O horror torna-se mais explícito, mais físico, porém menos sugestivo.
Ainda assim, o filme possui um valor simbólico importante: ao trazer o apocalipse para o espaço urbano contemporâneo, Argento sugere que o mal não está mais confinado a academias isoladas ou prédios góticos, mas se espalha pelo tecido social, pelo caos cotidiano e pela violência banalizada. Mater Lachrymarum não governa um castelo oculto, mas caminha livremente entre multidões, refletindo um mundo onde o horror já não precisa se esconder.
Mais do que uma trilogia narrativa, trata-se de um projeto estético e mitológico, no qual Dario Argento explora seus temas obsessivos: a fragilidade da razão, o poder do inconsciente, a ameaça contida nos espaços e a beleza perturbadora da violência estilizada. A trilogia não busca coerência lógica, mas coerência sensorial. É um cinema que se vive mais do que se entende. Ao transformar o horror em experiência quase operística, Argento inscreveu Le Tre Madri como um dos projetos mais ambiciosos do gênero. Mesmo com suas imperfeições, a trilogia permanece como um testemunho do poder do cinema enquanto linguagem visual extrema — um feitiço de luz, som e cor que continua a assombrar espectadores décadas depois.

