Os bicheiros no Brasil ocupam um lugar peculiar no imaginário popular. Desde o início do século XX, quando o jogo do bicho começou a se espalhar pelo Rio de Janeiro, essas figuras passaram a exercer influência social e econômica. Embora ilegal desde o decreto editado durante o governo de Gaspar Dutra, a prática consolidou-se como um sistema paralelo de apostas, sustentado pela confiança entre bancas e apostadores, pela simplicidade das regras e pela ausência de mediação estatal. Ao longo do tempo, muitos bicheiros emergiram do submundo, financiando escolas de samba, eventos culturais e atividades esportivas, ao mesmo tempo em que se envolveram em disputas violentas e redes de corrupção com forças políticas e policiais da capital fluminense. Essa dupla face — entre o patrocínio cultural e a criminalidade organizada — faz dos bicheiros personagens emblemáticos de uma contradição estrutural brasileira, em que práticas ilegais convivem com profundo enraizamento social. O interesse por esse universo voltou à tona com o lançamento do documentário ‘Vale o Escrito — A Guerra do Jogo do Bicho’ e com a nova ficção de sucesso da Netflix, ‘Donos do Jogo’.

Na série, Jefferson Moraes, conhecido como “Profeta”, é filho de um pequeno bicheiro de Campos dos Goytacazes e sonha em ascender no submundo do jogo no Rio de Janeiro. Seu plano começa a ganhar forma quando o ex-lutador Búfalo Vitor passa a integrar uma das famílias mais poderosas do bicho ao se casar com Suzana Guerra. A irmã de Suzana, a ambiciosa Mirna, logo se alia a Jefferson, e juntos ambos prometem abalar as estruturas do negócio na capital. No meio desse processo, Profeta também se envolve com a enigmática Leila Fernandez, a “Primeira-Dama” do jogo carioca.

Em muitos aspectos, a série pode ser vista como uma versão “tupiniquim” do clássico de Mario Puzo que explora a máfia siciliana, O Chefão. A obra alterna a violência constante com a exuberância cultural do Rio de Janeiro: cenas de massacres são intercaladas com desfiles de escolas de samba, festas luxuosas e reuniões secretas. Os encontros da cúpula — onde os chefes das famílias se reúnem — tornam-se momentos de grande tensão dramática, revelando homens que se escondem sob fachadas joviais, mas que, em segundos, transformam-se em figuras brutais capazes de arruinar carreiras e vidas.

A escalada pelo poder é representada como uma disputa entre força e inteligência. Búfalo, visto inicialmente como um brutamontes incapaz de tomar decisões estratégicas, resolve conflitos com os punhos; já Profeta, um “Zé Ninguém”, joga de maneira paciente e calculada. Nas sombras desses dois, estão as irmãs Guerra, que, embora não ocupem formalmente os cargos de liderança por serem mulheres, mostram-se tão astutas e implacáveis quanto seus parceiros.

A série apresenta um humor distorcido e, por vezes, banaliza certos atos de violência, mas também revela filosofias brutais movidas pelo lucro. A relação entre a contravenção carioca, a máfia internacional e os laços com a corrupção política em Brasília surge como uma das camadas mais interessantes da trama.

O elenco reúne talentos marcantes: André Lamoglia interpreta Jefferson, um jovem ambicioso que acredita ter espaço entre os poderosos; Xamã vive Búfalo Vitor, ex-lutador de MMA lançado ao posto de chefe de uma das famílias mais influentes do Rio; Mel Maia se destaca como Mirna Guerra Moraes, inspirada em Shanna Garcia; Giullia Buscacio dá vida à igualmente ambiciosa Suzana; Juliana Paes interpreta Leila Fernandez, uma femme fatale elegante e misteriosa; e Chico Díaz encarna o igualmente enigmático Galego Fernandez.

‘Donos do Jogo’ revela, com intensidade e ritmo, os mecanismos subterrâneos que movem o poder no Rio de Janeiro, expondo o choque entre tradição, violência, ambição e glamour — um retrato contundente de um Brasil onde o crime organizado molda a cultura, a política e, inevitavelmente, o destino de seus protagonistas.