Estrelada por Zendaya, Hunter Schafer, Sydney Sweeney, Jacob Elordi e outros nomes em ascensão, Euphoria, adaptação americana da produção israelense de mesmo nome, chegou à HBO como uma série que apresentava uma versão distorcida dos altos e baixos da adolescência. Apesar de extremamente polêmica e cercada de controvérsias nos bastidores, a produção conquistou uma legião de fãs e se tornou um fenômeno comentado e premiado. Em 2026, a terceira e última temporada estreou trazendo velhos conhecidos, agora envolvidos em novos conflitos. Entretanto, o terceiro ano da série criada por Sam Levinson já não possui o mesmo impacto de antes. Revisitar Euphoria é também revisitar seus excessos, seus méritos e as incertezas que passaram a cercá-la.
A trama inicialmente acompanha Rue Bennett, uma adolescente de 17 anos recém-saída da reabilitação e sem qualquer intenção de permanecer sóbria. Sua perspectiva muda quando conhece Jules Vaughn, uma garota trans recém-chegada à cidade, por quem desenvolve uma conexão intensa, emocionalmente dependente e destrutiva. Ao redor delas, outros estudantes enfrentam seus próprios segredos, traumas e obsessões. Conforme acompanhamos esse grupo ao longo dos anos, torna-se evidente que, em Euphoria, toda escolha cobra um preço.
Além de Rue e Jules, a série constrói um mosaico de personagens complexos que representam diferentes facetas da juventude contemporânea. Nate Jacobs, interpretado por Jacob Elordi, simboliza uma masculinidade tóxica moldada por repressão emocional, violência e hipocrisia familiar. Já personagens como Cassie, Maddy, Kat e Lexi exploram temas relacionados à sexualização feminina, autoestima, solidão, amizade e necessidade constante de validação social. A série também conta com atuações marcantes de nomes como Colman Domingo, Nika King e Angus Cloud em papéis de apoio que ajudam a sustentar a narrativa emocional da produção.
Um dos aspectos mais marcantes dos primeiros anos de Euphoria foi sua estética visual. A série utilizava iluminação em neon, enquadramentos elaborados, glitter, maquiagens artísticas e movimentos de câmera quase hipnóticos para transformar emoções em imagens. O exagero visual não funcionava apenas como um recurso estilístico, mas também como uma extensão psicológica dos personagens. As edições frenéticas e as montagens cuidadosamente construídas criavam um universo constantemente à beira do colapso, refletindo a intensidade emocional e a instabilidade da adolescência.
Criada por Sam Levinson, Euphoria tornou-se um dos maiores fenômenos televisivos da década ao transformar o drama adolescente em uma experiência estética intensa, provocativa e profundamente emocional. Lançada pela HBO em 2019, a série rapidamente ultrapassou o rótulo de produção teen para se consolidar como um retrato brutal da juventude contemporânea, marcada por excessos, ansiedade, hiperexposição digital e crises identitárias. Entre maquiagens brilhantes, trilhas sonoras melancólicas e festas iluminadas por neon, Euphoria constrói uma narrativa sobre indivíduos emocionalmente destruídos tentando sobreviver a si mesmos.
O maior mérito — e também a maior crítica — de Euphoria talvez esteja em sua capacidade de abordar temas delicados de maneira explícita e desconfortável. Drogas, sexo, pornografia, violência psicológica, transtornos mentais e dependência emocional aparecem constantemente na narrativa. Muitos espectadores e críticos apontam que a série frequentemente estiliza situações traumáticas, transformando sofrimento em espetáculo visual. Há debates recorrentes sobre a glamourização do uso de drogas e da autodestruição, especialmente devido à fotografia sofisticada e ao forte apelo estético da produção. Outros argumentam que determinadas cenas apelam excessivamente para nudez e sexualização.
Mas o que dizer do terceiro ano da produção?
Após anos de espera, a série promoveu um salto temporal no qual os adolescentes problemáticos se transformaram em jovens adultos igualmente destruídos. Os dramas escolares deram lugar a dívidas milionárias, tráfico de drogas, exploração da indústria do entretenimento adulto e diferentes formas de prostituição. O que começou como uma narrativa sobre crises adolescentes — ainda que extremamente exageradas — tornou-se uma produção que tenta abraçar múltiplos gêneros ao mesmo tempo e, em muitos momentos, falha em todos eles.
A saída de Labrinth da trilha sonora principal, demissões de coadjuvantes, polêmicas envolvendo Sam Levinson e as mortes de Angus Cloud e Eric Dane contribuíram para que a terceira temporada mergulhasse em uma espécie de limbo criativo. Apesar das atuações ainda excelentes, a série pouco se assemelha à força de sua primeira temporada. Muitas cenas e diálogos explícitos parecem existir apenas para chocar ou satisfazer um voyeurismo superficial. A sexualização extrema das atrizes — sobretudo de Sydney Sweeney — e a desconstrução brutal de diversos personagens tornam essa nova fase cansativa até mesmo para aqueles que ainda tentam manter boa vontade em relação à produção.
Sam Levinson, o polêmico criador da série, afirma que Euphoria chegou ao fim — e talvez isso seja o mais apropriado. A produção que um dia se destacou por traduzir dores reais da juventude através de uma estética inovadora agora parece aprisionada nos próprios excessos. Ainda existem momentos brilhantes, atuações poderosas e lampejos da sensibilidade que transformaram a série em um fenômeno cultural, mas eles já não conseguem esconder o desgaste criativo de uma narrativa que perdeu parte de sua identidade.

