Julian Fellowes conquistou o mundo com ‘Downton Abbey’, um drama histórico que explorou os altos e baixos de uma família nobre inglesa. Apesar de se diferenciar de ‘Downton’ em diversos aspectos, outro projeto do criador chamou a atenção de um público igualmente sedento por tramas da elite envoltas em críticas sociais: a série ‘The Gilded Age’ , da HBO Max, que acaba de encerrar sua terceira temporada — já renovada para um quarto ano.
Nova York resplandece no período conhecido como “Era Dourada”, quando tudo cintila, mas a custos terríveis. A série acompanha a elite nova-iorquina, seja ela herdeira de fortunas ancestrais ou parte dos — temidos — novos ricos. No centro da narrativa está uma socialite em ascensão, movida pela ambição e pelo desejo de reconhecimento. Ambientada na década de 1880, a trama retrata um período marcado por mudanças rápidas, tanto tecnológicas quanto éticas. Também são exploradas as transformações que os últimos anos do século XIX trouxeram para empresários, para a comunidade afro-americana e para mulheres presas em casamentos sem amor.
Enquanto ‘Downton Abbey’ assumia um tom épico em seu retrato dos dramas históricos, ‘The Gilded Age’ segue a lógica de uma série de televisão moderna, explorando múltiplas narrativas simultaneamente, com episódios de no mínimo 60 minutos. Apesar de alguns núcleos carecerem do mesmo carisma de seu antecessor — especialmente certas tramas envolvendo os empregados das suntuosas mansões, que às vezes recebem um tratamento disperso —, a série consegue criar personagens suficientemente cativantes para transformar até pequenos conflitos em momentos de interesse.
Os personagens são construídos com camadas que os afastam do unidimensional. Bertha Russel, uma das protagonistas, exemplifica isso: socialite recém-enriquecida, é ambiciosa e controladora com a família, responsável por muitos dos conflitos centrais. Ainda assim, seu carisma torna possível que suas ações sejam, em certa medida, “perdoadas” pelo público. Outro ponto de destaque é o retrato da elite afro-americana da Nova York do século XIX, que, mesmo desfrutando de status e riqueza, ainda enfrentava barreiras impostas pelo racismo — inclusive dentro de suas próprias comunidades.
Grandes eventos da Era Dourada são incorporados à narrativa, como a inauguração da Ponte do Brooklyn, a abertura da Ópera do MET, o advento da luz elétrica de Edison e as greves trabalhistas que agitavam a cidade. O figurino, embora nem sempre rigorosamente fiel ao período, contribui para a atmosfera glamourosa e, ao mesmo tempo, desigual que define a série.
O elenco estelar é um dos principais atrativos, reunindo nomes que transitam com desenvoltura entre o cinema, a televisão e o teatro. Carrie Coon e Christine Baranski lideram, respectivamente, as representações do New Money e do Old Money. Cynthia Nixon, Denee Benton e Louisa Jacobson equilibram narrativas mais pesadas com leveza, sem perder a seriedade de suas personagens e conflitos próprios. A série também conta com presenças marcantes de grandes nomes do teatro, como Donna Murphy, Audra McDonald, Nathan Lane e Kelli O’Hara, entre outros.
Em três temporadas, ‘The Gilded Age’ consolidou-se como um drama histórico de apelo visual exuberante, apoiado por atuações sólidas e um roteiro que mistura intrigas sociais, conflitos pessoais e um retrato crítico das desigualdades de sua época. Ao mesmo tempo que encanta pelo luxo e pela opulência, a série lembra que, por trás de cada brilho da Era Dourada, havia um custo que não pode ser ignorado.

