A série ‘Them’ é uma produção perturbadora e instigante do horror contemporâneo. Criada por Little Marvin e lançada pela Amazon Prime Video em 2021, a obra se apresenta como uma antologia que utiliza o terror psicológico para explorar feridas históricas profundas, sobretudo aquelas relacionadas ao racismo estrutural nos Estados Unidos. “Them” aposta na inquietação contínua, em atmosferas opressivas e em narrativas que colocam o espectador diante de um horror que é tanto sobrenatural quanto brutalmente real.
Na década de 1950, durante a Segunda Grande Migração (quando milhões de afro-americanos deixaram o sul dos Estados Unidos em busca de melhores condições de vida), a família Emory decide deixar a Carolina do Norte em busca de uma vida melhor na Califórnia. Eles se mudam para Compton, um bairro de Los Angeles predominantemente branco na época. O que deveria ser um refúgio de esperança rapidamente se torna um pesadelo em duas frentes: fora de casa, o terror real do racismo vizinhos dispostos a tudo para expulsá-los; dentro de casa, forças sobrenaturais malévolas que se alimentam de seus traumas passados.

Nesse ponto,“Them” se diferencia de outras produções do gênero: Ao invés de separar o horror real do sobrenatural, a série os funde de maneira quase indistinguível. As entidades que assombram a família não são apenas fantasmas no sentido clássico, mas metáforas vivas de traumas históricos, de memórias coletivas e de violências sistemáticas. Essa abordagem dialoga com outras obras contemporâneas, como Lovecraft Country e os filmes ‘Get Out’ e ‘Us‘, ambos dirigidos por Jordan Peele.
A estética da série é outro de seus pontos mais marcantes. A direção de arte aposta em contrastes visuais intensos: o subúrbio ensolarado, aparentemente idílico, esconde uma atmosfera sufocante, onde cada detalhe — da paleta de cores às composições de cena — contribui para a sensação de desconforto. A trilha sonora, minimalista e perturbadora, reforça essa tensão constante, criando momentos em que o silêncio se torna tão ameaçador quanto qualquer aparição sobrenatural. Não se trata de um terror baseado em sustos rápidos, mas de um horror que se infiltra lentamente, corroendo o espectador. As atuações também merecem destaque: O elenco principal entrega performances densas e emocionalmente exaustivas, especialmente ao retratar o desgaste psicológico causado pelo racismo e pelo isolamento. A dor dos personagens não é estilizada; ela é crua, muitas vezes difícil de assistir. E é justamente essa recusa em suavizar o sofrimento que torna “Them” uma experiência tão impactante — e, para alguns, até controversa. Críticos apontaram que a série, em certos momentos, se aproxima de um exploração pseudo-pornografica da dor negra. Essa crítica levanta um debate importante.

Ainda assim, é inegável que “Them” cumpre um papel relevante ao inserir essas discussões dentro do gênero do horror, tradicionalmente associado ao entretenimento escapista. Ao fazer isso, a série subverte expectativas e exige uma postura mais ativa do espectador. Não há conforto aqui — apenas confronto. O medo não vem apenas do desconhecido, mas do reconhecimento: da percepção de que muitas das violências retratadas não pertencem ao passado distante, mas ecoam no presente. Outro aspecto interessante é como a série trabalha o espaço doméstico. A casa da família Emory, que deveria ser um lugar de segurança, transforma-se em um cenário de constante ameaça. Esse recurso reforça a ideia de que o racismo invade todas as esferas da vida, inclusive aquelas que deveriam ser íntimas e protegidas. O lar, nesse contexto, deixa de ser refúgio e se torna prisão — um conceito recorrente no horror, mas aqui carregado de um peso histórico específico.
Em termos narrativos, “Them” não segue uma estrutura linear simples. A série utiliza flashbacks e elementos fragmentados para construir sua história, revelando gradualmente os traumas que assombram os personagens. Essa escolha contribui para a sensação de desorientação, colocando o espectador em um estado semelhante ao dos protagonistas, que lutam para distinguir realidade e alucinação. O horror, portanto, não está apenas no que é mostrado, mas também no que é sugerido — no que permanece fora de quadro, mas nunca fora da mente.
Por fim, “Them” se consolida como uma obra que ultrapassa os limites do gênero. Ela não é apenas uma série de terror, mas um estudo sobre memória, identidade e violência. Ao confrontar o espectador com imagens e situações profundamente desconfortáveis, a produção levanta questões que permanecem após o fim dos episódios. É uma experiência que desafia, incomoda e, acima de tudo, permanece — como um eco persistente, impossível de ignorar.
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