Embora a indicação de “Ainda Estou Aqui” represente uma façanha inédita para o cinema brasileiro, há outro filme que pode ser considerado o primeiro a ser indicado à categoria principal: “O Beijo da Mulher-Aranha”. Baseado no livro de Manuel Puig e dirigido por Hector Babenco, a obra foi gravada em São Paulo, conta com um elenco majoritariamente brasileiro e foi financiada pela Embrafilmes. Sucesso de crítica, o filme aborda temas como repressão, política, sexualidade e identidade. Em breve, sua versão musical, estrelada por Jennifer Lopez e Diego Luna, será lançada, reafirmando o status deste clássico.
Valentim Arregui e Luis Molina dividem uma cela de prisão durante o regime militar. Arregui é um preso político integrante de uma guerrilha de resistência à ditadura, enquanto Molina, homossexual, foi detido após manter um relacionamento com um menor. Sem nada para fazer e sempre em busca de uma fuga, Molina passa a recontar a história de seu filme favorito para Valentim. Com o passar dos dias, os dois detentos desenvolvem uma improvável amizade, compartilhando relatos de suas vidas anteriores à prisão e ajudando-se mutuamente a suportar a instabilidade do presídio.
O filme constrói uma narrativa metalinguística ao inserir, na trama principal, a história do “filme nazista” que Molina idolatra. Esse artifício remete, sobretudo, ao cinema hollywoodiano, com a enigmática personagem Leni — nomeada em homenagem à cineasta nazista Leni Riefenstahl e inspirada em figuras como Marlene Dietrich e Lana Turner — cuja interpretação por Sonia Braga é marcante.
Enquanto o livro de Manuel Puig situa a história explicitamente na Argentina durante a ditadura, Babenco optou por um cenário mais indefinido, sem mencionar um país específico, embora a bandeira do Brasil apareça em algumas cenas. Dessa forma, o diretor buscou tornar a narrativa universal, ressoando com diversas nações latino-americanas, muitas das quais enfrentavam ditaduras financiadas pelos EUA na época.
Ambientado predominantemente em um único espaço, o filme cria uma atmosfera claustrofóbica e intimista, lembrando uma peça teatral. William Hurt e Raul Julia, os únicos atores estrangeiros do elenco, interpretam personagens que simbolizam, respectivamente, ideais de resistência e escapismo, mesmo com pouco tempo em cena. A convivência entre eles gera uma troca profunda, onde a narrativa dos sonhos e das fantasias contrasta com a violência e a repressão do mundo exterior, enriquecendo a trama e convidando o espectador a refletir sobre os limites entre liberdade e opressão, bem como sobre a capacidade humana de se reinventar mesmo em momentos adversos
William Hurt conquistou o Academy Award de Melhor Ator por sua atuação como Molina. A presença de brasileiros consagrados — como Sônia Braga, Herson Capri, Milton Gonçalves e Fernando Torres — evidencia a versatilidade dos atores nacionais. Em especial, Sônia Braga se destaca na enigmática personagem Leni e na figura da “Sobrenatural Mulher-Aranha”.
Mais do que um simples drama, “O Beijo da Mulher-Aranha” impõe-se como uma crítica social e política. Em uma época em que temas como a repressão política, a liberdade individual e a identidade de gênero ganhavam visibilidade, o filme trouxe à tona discussões relevantes e, de certo modo, revolucionárias para o cinema. Sua mensagem permanece atual, provocando reflexões sobre como a opressão pode ser enfrentada e superada tanto no âmbito pessoal quanto coletivo.