Com o divisivo remake de Vale Tudo, 2025 revisitou uma das maiores novelas da televisão brasileira, trazendo de volta uma de suas vilãs mais emblemáticas. O retorno de Odete Roitman representou uma oportunidade significativa na carreira de Deborah Bloch, mas inevitavelmente esteve sob a sombra da versão anterior, interpretada de forma magistral por Beatriz Segall. No ano em que a atriz completaria cem anos, torna-se não apenas oportuno, mas necessário revisitar a trajetória dessa figura fundamental da cultura brasileira — por vezes injustamente esquecida quando comparada a outras grandes damas da cena nacional.
Nascida em 1926, no Rio de Janeiro, em uma família profundamente ligada à cultura e às artes, Beatriz Segall (então Beatriz Toledo) cresceu em um ambiente intelectualizado. Anos mais tarde, recebeu uma bolsa para estudar teatro e literatura em Paris. Na capital francesa, deu continuidade à formação e conheceu Maurício Klabin Segall , Com quem se casou em 1954 e teve três filhos: o diretor de cinema e empresário Sérgio Segall, o professor Mário Lasar Segall e o arquiteto Paulo Segall. Nesse período, afastou-se da carreira artística, retomando-a apenas em 1964. O teatro foi, durante muitos anos, o espaço em que Beatriz Segall melhor expressou sua vocação artística. Atuou em textos clássicos e contemporâneos, nacionais e estrangeiros, sempre com especial atenção à densidade psicológica das personagens femininas. Em um momento em que o teatro brasileiro buscava se afirmar como espaço de reflexão política e social — sobretudo entre as décadas de 1950 e 1970 —, Segall destacou-se por interpretar mulheres complexas, atravessadas por conflitos morais, frustrações íntimas e relações de poder.

A transição para a televisão não significou, para Beatriz Segall, uma diluição de sua arte. Ao contrário, ela levou à teledramaturgia um rigor interpretativo que contribuiu para sofisticar o meio. Em um contexto em que as novelas ainda se estruturavam fortemente em arquétipos simplificados, Segall passou a oferecer personagens de múltiplas camadas, desafiando o público a enxergar além da superfície. Sua presença em cena funcionava como contraponto à atuação expansiva comum ao gênero, introduzindo uma teatralidade refinada, cerebral e contida.
Esse processo atingiu o ápice com a personagem que eternizaria seu nome na cultura brasileira: Odete Roitman, da novela Vale Tudo (1988). Mais do que uma vilã memorável, Odete tornou-se um símbolo. Fria, elitista, cruel em sua lucidez e absolutamente consciente de seu poder, a personagem representava uma crítica direta às estruturas sociais brasileiras, à hipocrisia da elite econômica e ao desprezo pelas camadas populares. Odete Roitman aterrorizava justamente porque falava baixo, humilhava com elegância e acreditava profundamente no que dizia. A atuação de Segall redefiniu o conceito de vilã na televisão brasileira. Até então, o antagonismo feminino frequentemente se apoiava em exageros emocionais ou em uma maldade caricatural.

Apesar de ter ficado eternamente associada a Odete Roitman, Beatriz Segall jamais se reduziu a esse papel. Sua carreira pós-Vale Tudo seguiu marcada por escolhas criteriosas, tanto no teatro quanto na televisão. Ainda que permanecesse vinculada à personagem — muitas vezes evocada por autores de menor lastro artístico, que tentavam criar variações de sua vilã —, Segall continuou a atuar em séries, novelas e peças que dialogavam com temas contemporâneos, sempre preservando sua identidade artística. Paralelamente, destacou-se como voz ativa na defesa do teatro brasileiro, criticando a precarização das artes cênicas e a ausência de políticas públicas consistentes para o setor cultural.
Durante o Governo Militar, o marido da atriz foi preso, torturado e condenado. Beatriz viu-se sozinha, com os filhos pequenos, sob constante vigilância e opressão. Foram meses de dificuldades até que ele fosse libertado. No início dos anos 1980, o casal apoiou o Partido dos Trabalhadores, então liderado pelo sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. Na década seguinte, separaram-se de forma amigável, e a atriz passou a expressar publicamente sua decepção com os rumos do governo comandado por Lula

Beatriz Segall tornou-se também uma referência para gerações mais jovens de atores e atrizes, não apenas pelo talento, mas pela postura ética diante da profissão. Sua visão do ofício estava ligada à responsabilidade intelectual do artista, à necessidade de compreender o texto, o contexto histórico e o impacto social da obra. Em um meio frequentemente seduzido pela fama imediata, Segall representava a figura do artista-pensador, do intérprete consciente de seu papel na sociedade. Embora sempre tenha defendido o valor cultural da televisão, foi uma crítica severa aos rumos que a TV Globo passou a adotar na década de 2010. Seu último trabalho na emissora foi como Yolanda, na série Os Experientes.
Ao falecer em 2018, após anos lutando contra o Alzheimer, Beatriz Segall deixou um legado que vai muito além de personagens icônicos. Sua trajetória ajudou a moldar a dramaturgia brasileira moderna, elevando o nível da atuação feminina e ampliando as possibilidades de representação das mulheres na cena nacional. Inteligente, irônica, elegante e profundamente crítica, Beatriz Segall permanece como exemplo de como o talento, aliado à reflexão e ao rigor artístico, pode atravessar o tempo e transformar-se em memória coletiva. Se o remake medíocre de Vale Tudo teve algum mérito, foi o de oferecer a oportunidade de revisitar a grandeza de Beatriz Segall.

