A teledramaturgia brasileira, ao longo das décadas, ofereceu ao público personagens carismáticos que despertaram identificação ao enfrentar desafios em diferentes contextos culturais de um país tão vasto e diverso quanto o Brasil. As novelas, além de apresentarem protagonistas cativantes, também deram espaço a antagonistas memoráveis, que rapidamente conquistaram o público. Tivemos a vigarista Carminha, de Avenida Brasil; a ambiciosa Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata; a moralista Perpétua, de Tieta ; entre tantas outras figuras que serviram de veículos para que artistas mostrassem seu talento e povoassem o imaginário nacional.
Entre todas, consagrou-se como a maior vilã da teledramaturgia brasileira Odete Roitman, de Vale Tudo, imortalizada por Beatriz Segall. Embora menos “perigosa” que as assassinas dos folhetins dos anos 2000, a força de Odete residia na maneira como incorporava a crítica social da novela. Seu desprezo pelo Brasil escancarado, e a performance cortante de Segall elevou a personagem a um patamar icônico. Além disso, o mistério em torno de seu assassinato nas semanas finais de exibição ajudou a eternizar a vilã no imaginário popular.

Em 2025, Manuela Dias trouxe Odete de volta no remake de Vale Tudo, agora interpretada por Deborah Bloch. A autora, demonstrou reservas em relação às duras críticas sociais da versão original, remodelando a personagem para refletir o Brasil contemporâneo — com resultados variados e que, em sua maioria, desagradaram intérpretes e espectadores. Assim, as Odetes de 1988 e de 2025 passaram a representar diferentes faces da elite brasileira. Em ambas as versões, a personagem foi construída de forma ambígua, permitindo que os autores ora a criticassem, ora a tratassem com certa simpatia. Com o controverso e medíocre remake chegando ao fim – e o ‘e se?” mais famoso da TV brasileira voltando -, é oportuno revisitar os muitos simbolismos associados à personagem e discutir como as duas versões se distanciam — ou se aproximam.
Beatriz Segall é Odete Roitman

O ‘Vale Tudo’ de Gilberto Braga representava o Brasil logo após 21 anos de Governo Militar e às vésperas de sua primeira eleição presidencial desde 1961. O país, comandado por José Sarney, vivia em meio ao caos econômico e social, enquanto as mudanças culturais da década de 1980 se entrelaçavam em um caldeirão de tensões — refletido nos diferentes núcleos do folhetim original.
A Odete de Beatriz Segall era uma figura severa, inflexível e tomada por completo horror ao Brasil e ao seu povo. CEO de uma empresa de aviação, era uma mãe controladora que comandava a família com mão de ferro, capaz de crimes e chantagens em nome da “estabilidade” dos filhos Afonso e Helena. Dona de frases condenáveis, Odete simbolizava o poder frio, calculista e corrupto que se seguiu ao retorno do governo civil.

O texto de ‘Vale Tudo’ permitia que Odete transitasse entre o grotesco e o sofisticado, o risível e o assustador. Apesar de condenável, sua lógica era sempre coerente: ao ter uma propriedade invadida por manifestantes, seu raciocínio não se apoiava em ameaças caricaturais ao “perigo comunista”, mas na simples noção de que o que comprara lhe pertencia. Era uma vilã com pouca chance de redenção, mas também com pouca caricatura. Sua força não estava em atos extremos, mas no que representava: uma elite que lucra com o caos do país e que se sente acima das regras, amiga de ditadores e com a afirmação de ser dona da verdade. Ao mesmo tempo, carregava um carinho distorcido pela imagem da própria família, permitindo momentos de vulnerabilidade. Depois de tantas vilãs mergulhadas no realismo mágico, Odete surgia como uma antagonista “normal”, mas profundamente verossímil.
Seu assassinato paralisou o Brasil. Para Beatriz Segall, a comoção foi chocante: a reação popular mostrou-se favorável à punição extrema, preferindo a morte da vilã a qualquer desfecho alternativo. Curiosamente, Odete foi a única antagonista da novela a realmente sofrer uma punição, enquanto outros personagens igualmente corruptos permaneceram intocados ou impunes — um reflexo brutal do Brasil da época.
Deborah Bloch é … Odete Roitman

Sete presidentes, dois impeachments, sucessivas crises financeiras, incontáveis escândalos de corrupção e uma nação politicamente dividida separam o ‘Vale Tudo’ original de seu remake. Para celebrar os 60 anos da Rede Globo, a emissora encomendou a nova versão, entregue sob o comando de Manuela Dias. Desde os primeiros capítulos, a novela recebeu críticas mistas, seja pela simplificação dos dilemas, seja pela tentativa de modernizar o texto com frases feitas da década de 2010 ou alinhamentos políticos explícitos em uma novela que, de maneira anterior, poderia ser interpretada de qualquer maneira .
Ainda assim, é inegável que Deborah Bloch se firmou como o principal pilar da nova versão, em meio a personagens considerados insuportáveis pelo público. As mudanças impostas por Dias retiraram a agência de muitos núcleos ligados à empresária da TCA, fazendo com que Odete se destacasse como a voz mais sensata da trama. Enquanto Afonso clama por mudanças inclusivas na empresa que herdará e outros questionam sua presença, é Odete quem trabalha, mantém a família e fornece força narrativa. Longas cenas originais, em que a personagem discutia a ética brasileira ou expunha preconceitos de forma brutal, foram substituídas por falas soltas e por tentativas de alinhá-la a figuras como o ex presidente Jair Bolsonaro.

Essa nova Odete se diferencia da original por diversos aspectos. Embora tanto Bloch quanto Segall tenham interpretado a personagem aos 62 anos, a versão de 2025 traz apelo sexual em suas relações com amantes mais jovens e uma falta de afeto palpável pelos filhos. Manuela Dias criou novos conflitos — muitas vezes falhos — que, colocam Odete como a parte mais coerente das disputas .
Porem, essa versão da personagem é incoerente em quase tudo que é apresentado: ela é má, mas nem tanto; Ela despreza vulgaridades, mas fala algumas baixarias; É a mentora de artimanhas mirabolantes; mas toma posições que chegam a ser ridiculas; é racista, mas nem tão racista – o discurso racial de Roitman foi substituído em peso por uma narrativa capacitista em uma das únicas mudanças-inteligentes a primeira vista- de Manuela Dias: Leonardo, o filho que originalmente tinha morrido em um acidente de carro sobreviveu, mas com graves danos cognitivos.

A novela buscou ainda aproximá-la de ícones contemporâneos, como Miranda Priestley, de ‘O Diabo Veste Prada’. Em diversas cenas, a interação de Odete com Consuelo (Belize Pombal) remetia às trocas entre Meryl Streep e Emily Blunt no cinema. Mas o resultado acabou soando como caricatura de alguém distante do espírito original de Braga e do universo social que Odete representava. Tal foi o sucesso da Odete de Bloch que entusiastas pediram para que a mesma fosse poupada
As militâncias plásticas de Manuela Dias e desconectadas da realidade do Brasil de 2025 colocaram a ‘vilã das vilãs’ como protagonista, ao invés da trabalhadora Raquel, personagem originada por Regina Duarte e interpretada por Tais Araújo. A maneira como a autora lidou com as críticas, escolhendo ignora-las e abraçando conveniências, mostram o despreparo para lidar com um produto como ‘Vale Tudo’.
Seu assassinato em 2025, incluído mais como “obrigação narrativa” do que como clímax orgânico, promove teorias de que esta versão da vilã pudesse escapar ilesa, em moldes semelhantes a personagem Bia Falcão de ‘Belíssima’. A antipatia da população brasileira pela elite brasileira não sendo a mesma que em 1988 e as escritas distorcidas de Manuela Dias transformaram o arco final de Vale Tudo em um momento desesperado para melhorar as audiências.

A comparação entre as duas Odetes evidencia não apenas mudanças no perfil da vilania televisiva, mas também no olhar da sociedade brasileira sobre sua elite. Em 1988, a personagem de Segall foi temida e odiada, refletindo um país em transição democrática, ainda incrédulo diante de seus próprios fantasmas. Já em 2025, a versão de Bloch, mais suavizada e até caricatural, foi recebida com indiferença ou ironia, sinalizando um público mais cético diante de vilões de novela e mais acostumado a antagonistas reais .
Se a primeira Odete marcou para sempre a história da teledramaturgia, a segunda reafirma a dificuldade de repetir o impacto de uma obra clássica sem compreender o contexto em que ela nasceu. No fim, Odete Roitman permanece imortal — não por sua morte, mas porque continua a nos lembrar que, no Brasil, o verdadeiro “vale tudo” sempre esteve na relação entre poder, moralidade e corrupção.
Mas agora, eis o verdadeiro questionamento: QUEM MATOU – A NOVA- ODETE ROITMAN?
Atualização pós ultimo capítulo:
NINGUEM MATOU ODETE ROITMAN…
Em uma divergência definitiva da versão original, a empresaria interpretada por Debora Bloch sobrevive ao atentado contra sua vida e vai embora de vez do país que tanto desprezou. Em uma semana fraca e cheia de pontas soltas, o folhetim de Manuela Dias encerra de maneira medíocre e com todos os vilões se dando bem de sua própria forma
Apesar de ser vendida por membros da emissora como um sucesso enquanto é arrasada pela crítica especializada, o maior feito da produção foi reintroduzir essa personagem tão marcante da cultura nacional a uma nova geração, garantindo Deborah Bloch algumas décadas de reconhecimento- tal foi com Segall

