Há algo quase irresistível em romances universitários que entendem exatamente o que o público procura: tensão romântica, diálogos afiados, personagens traumatizados tentando sobreviver à juventude e uma química capaz de sustentar centenas de páginas. A série Off Campus, baseada na obra de Elle Kennedy, transforma todos esses elementos em uma narrativa viciante e surpreendentemente emocional, construída a partir de uma premissa que parece saída de uma clássica comédia romântica dos anos 2000 — a chamada “Era de Ouro das rom-coms”.
Hannah Wells é uma estudante brilhante e reservada que finalmente encontrou alguém capaz de mexer com ela. O problema é que lhe falta confiança para dar o primeiro passo, além de carregar um segredo doloroso. Já Garrett Graham é o capitão do time de hóquei da universidade: popular, conhecido pelos encontros casuais e completamente focado em seguir carreira profissional. Contudo, suas notas baixas em Ética colocam sua permanência no time em risco. Quando Garrett percebe que Hannah pode ajudá-lo a passar na matéria, ele propõe um acordo: ela o ajuda nos estudos e, em troca, ele finge ser seu namorado para despertar ciúmes em Justin Kohl, o garoto por quem ela é apaixonada. O que começa como uma troca de favores puramente estratégica logo se transforma em uma conexão genuína, obrigando ambos a confrontarem traumas e inseguranças do passado.
A história criada por Elle Kennedy compreende perfeitamente as convenções dos gêneros “fake dating” e “enemies to lovers”, tão populares em filmes como 10 Things I Hate About You e franquias como After. O diferencial, porém, está na maneira como a autora injeta autenticidade em seus protagonistas. Garrett poderia facilmente ser apenas mais um atleta arrogante típico dos romances new adult, mas Kennedy o constrói com carisma suficiente para torná-lo memorável. Debaixo da fachada sedutora existe um jovem emocionalmente destruído pela pressão familiar e pela necessidade constante de performar masculinidade. Hannah, por sua vez, carrega traumas profundos que o livro aborda com uma delicadeza inesperada para o gênero. A narrativa acerta justamente por não transformar essas dores em mero recurso dramático: elas moldam inseguranças, desejos e a forma como os personagens enxergam a intimidade. Mesmo que o foco da obra seja o público jovem adulto, seus conflitos emocionais são menos superficiais do que em fenômenos recentes como ‘The Summer I Turned Pretty‘. A série é cautelosa a tratar temas como abuso sexal, pressõesexternas e internas, masculinidade utópicas e muito mais
O maior triunfo da primeira temporada de Off Campus talvez esteja na dinâmica entre seus protagonistas. Hannah e Garrett funcionam porque a relação nasce da amizade antes da paixão, em um eterno jogo de gato e rato. Ella Bright canaliza uma energia adorável, mas ao mesmo tempo misteriosa, enquanto Belmont Cameli entrega um Garrett carismático e emocionalmente vulnerável. Os momentos mais marcantes nem sempre estão nas cenas sensuais — embora elas tenham ajudado a consolidar a fama da obra —, mas nas conversas durante a madrugada, nas provocações bobas e na forma como ambos se tornam porto seguro um para o outro. Há leveza, humor e uma naturalidade rara em romances contemporâneos extremamente formulaicos.
O elenco coadjuvante, formado por atletas e estudantes universitários carismáticos, diverte e expande o universo da série, deixando evidente o potencial para acompanhar esses personagens por muitos anos de maneira semelhante a Bridgerton. O ritmo relativamente frenético consegue equilibrar cenas de diálogo com outro elemento importante da produção: a música. A utilização de canções pop, como Zombieboy, de Lady Gaga, aliada a uma edição dinâmica, mantém a narrativa em constante movimento. Entre Rivalidade Ardente e esta produção, 2026 parece caminhar para um verdadeiro boom das histórias ambientadas no universo do hóquei.
Ainda assim, a produção não escapa completamente dos clichês do gênero. Algumas situações seguem caminhos previsíveis, enquanto certos diálogos soam excessivamente idealizados, capazes de fazer até os espectadores mais envolvidos revirarem os olhos. Além disso, o universo universitário apresentado por Kennedy frequentemente flerta com fantasias típicas de fanfics.
Mas talvez seja exatamente aí que resida o grande apelo de Off Campus: a série entende perfeitamente sua proposta. Não pretende reinventar as adaptações literatura romântica, e sim oferecer escapismo emocional através de personagens cativantes, romances intensos e uma narrativa irresistivelmente envolvente. É uma história rápida, divertida e perigosamente fácil de devorar em poucas horas.
Categorized in:

