Há um certo charme em filmes centrados em protagonistas eternamente inocentes e capazes de conquistar toda a família. A franquia Paddington alcançou enorme sucesso com premissas simples e personagens cativantes, e nem é preciso lembrar como Winnie-the-Pooh e a turma do Bosque dos Cem Acres continuam presentes na cultura popular mesmo após quase um século. Em uma tentativa de adaptar o livro Three Bags Full, a Amazon MGM Studios apresenta uma produção de premissa estranha, mas cheia de coração: As Ovelhas Detetives, estrelado por Hugh Jackman, Emma Thompson e um rebanho de ovelhas improváveis.
George é um pastor que vive uma existência pacata ao lado de seu rebanho nos arredores de Denbrook, na Inglaterra. Considerado um ermitão por muitos moradores da região, ele dedica seus dias a cuidar e mimar suas ovelhas — inclusive lendo romances policiais para elas todas as noites. Quando George aparece morto do lado de fora de seu trailer, suspeitas e possíveis motivos começam a surgir rapidamente. Diante da tragédia, as ovelhas decidem investigar o que aconteceu com seu querido pastor e, quem sabe, expandir seus horizontes no processo.
A palavra ideal para definir o filme é simples: adorável. À primeira vista, a premissa pode soar desesperada ou até sem criatividade, mas o que transforma essa aventura em algo genuinamente encantador é sua atmosfera calorosa e seus personagens peculiares. O mistério apresentado não é exatamente difícil — muitos espectadores provavelmente descobrirão o culpado logo nos primeiros atos —, mas assistir a um grupo de ovelhas tentando deduzir quem cometeu o crime é absurdo o suficiente para se tornar irresistivelmente cômico.
Embora a solução do mistério não seja uma grande surpresa para a audiência, acompanhar o filme lembra assistir à primeira aventura de Miss Marple voltada para crianças, ou a um episódio de Murder, She Wrote para os mais velhos. As pistas surgem quase milagrosamente diante dos cascos de nossos detetives improvisados e, ainda que exista certa obviedade na narrativa, há uma construção constante que convida o público a participar da investigação. Além de funcionar como um mistério divertido, o longa também aborda temas mais delicados, como o confronto com a morte e o medo diante da vastidão do mundo, elementos surpreendentemente bem trabalhados ao longo da trama.
Retratadas tradicionalmente como figuras dóceis, submissas e inocentes, as ovelhas desenvolvem aqui uma mitologia própria. Seja pela capacidade de esquecer acontecimentos quando desejam, seja pela crença de que se transformam em nuvens após a morte, o filme transforma criaturas normalmente superficiais em personagens presos a ciclos emocionais curiosamente humanos. A produção evita cair no chamado “vale da estranheza” comum em filmes protagonizados por animais. Apesar da aparência hiper-realista dos ovinos, isso não limita sua expressividade; pelo contrário, torna suas participações ainda mais memoráveis e não convencionais. Os efeitos visuais concedem a Lilly, Mopple e ao restante do rebanho uma dimensão emocional raramente vista em animais digitais. Em meio ao absurdismo da trama, os personagens também protagonizam momentos genuinamente emocionantes, equilibrando humor e sensibilidade. Entre as vozes do elenco estão Julia Louis-Dreyfus, Patrick Stewart, Bryan Cranston e Bella Ramsey.
O elenco humano é igualmente recheado de rostos conhecidos, ainda que poucos recebam profundidade real dentro da história. Hugh Jackman interpreta a vítima central da trama e, mesmo com pouco tempo em cena, demonstra como continua convincente em narrativas menores e mais intimistas, apesar da fama adquirida em grandes filmes de ação. Nicholas Galitzine vive Elliot Matthews, um jornalista intrometido que, ao lado de um policial incompetente, tenta solucionar o caso. Já os demais suspeitos são interpretados por Emma Thompson, Hong Chau e uma galeria de personagens caricatos que abraçam plenamente o tom excêntrico da produção, mas que nao a complementam.
No fim, ‘As Ovelhas Detetives’ talvez não reinvente o gênero investigativo nem entregue um grande suspense capaz de surpreender o público mais atento. Ainda assim, encontra força justamente em sua simplicidade e em seu coração despretensioso. Entre o humor absurdo, a ternura de seus protagonistas improváveis e a atmosfera acolhedora típica das produções familiares britânicas, o filme constrói uma experiência leve, divertida e surpreendentemente sensível. É uma obra que entende perfeitamente seu próprio absurdo e transforma isso em charme — como um conto infantil atravessado por um romance policial aconchegante.

