Amizades interespécies sempre foram grandes fontes de inspiração para o cinema. Há o vínculo entre um garanhão e seus donos no século XIX em ‘Beleza Negra’, a amizade entre um menino e sua orca em ‘Free Willy’ e uma infinidade de produções protagonizadas por cães. Em ‘Criaturas Extraordinariamente Brilhantes’, um laço construído nas circunstâncias mais improváveis conduz uma história sobre liberdade, superação e, sobretudo, as conexões que construímos ao longo da vida.
Tova Sullivan é uma viúva que passa as noites trabalhando como faxineira em um aquário, onde desenvolve uma amizade improvável com Marcellus, um polvo-gigante-do-pacífico que deseja voltar ao oceano antes de morrer. Paralelamente, Tova conhece Cameron, um jovem desamparado que busca respostas sobre o próprio pai e passa a ajudá-la nas tarefas do aquário. Observando os dois diariamente, Marcellus tenta encontrar uma maneira de ajudá-los enquanto também procura recuperar sua liberdade.
Baseado no livro homônimo de Shelby Van Pelt, o longa integra o catálogo da Netflix com uma dose de melodrama necessária para uma narrativa como essa. Em muitos aspectos, o filme pode parecer familiar, afinal, o cinema já apresentou diversas histórias semelhantes. Ainda assim, é justamente em sua simplicidade que a produção conquista o público. Os personagens abraçam seus próprios estereótipos — assim como a pequena cidade, onde fofocas rapidamente se transformam em verdades absolutas — sem cair na caricatura, graças às atuações carismáticas do elenco.
Sally Field interpreta Tova com delicadeza e melancolia, entregando uma protagonista cheia de camadas ao abordar um tema universal: a solidão na terceira idade. Já Lewis Pullman dá vida a um Cameron cético, impulsivo e emocionalmente perdido em sua busca por respostas. A química entre os atores fortalece a relação entre os personagens e transforma o filme em uma narrativa calorosa e emocionalmente envolvente.
O grande destaque, no entanto, é Marcellus. Com o monólogo interno dublado por Alfred Molina, o personagem não depende de expressões exageradas nem de diálogos constantes com os humanos para conquistar o espectador. Sua personalidade espirituosa e sua visão peculiar do mundo — ao se referir a Tova como “a mulher da limpeza” e a Cameron apenas como “o jovem” — acrescentam humor e sensibilidade à trama, além de promoverem reflexões sobre liberdade, solidão e pertencimento. Embora lembre Hank, de Procurando Dory, Marcellus possui uma presença própria, que conduz o longa a uma jornada emocional genuinamente tocante.
Visualmente, o filme não busca experimentações ousadas ou técnicas complexas. Ainda assim, o contraste das luzes bioluminescentes e os ambientes espelhados do aquário ajudam a intensificar a atmosfera melancólica da narrativa. A produção encontra beleza justamente na simplicidade de suas imagens e reforça sua principal mensagem: embora momentos de solitude sejam necessários, ninguém consegue atravessar a vida completamente sozinho.
Ao final, ‘Criaturas Extraordinariamente Brilhantes’ se destaca não por reinventar o gênero, mas por compreender a força das pequenas emoções. É um filme sobre perdas, recomeços e os vínculos inesperados que dão sentido à existência. Entre silêncios, memórias e encontros improváveis, a obra encontra humanidade até mesmo nas profundezas de um aquário, lembrando que, às vezes, as conexões mais transformadoras surgem de onde menos esperamos.

