Em 1977, a grande escritora brasileira Clarice Lispector faleceu. Sua última obra publicada em vida, ‘A Hora da Estrela’, foi rapidamente adaptada para o cinema, marcando uma espécie de renascimento para o cinema brasileiro no período pós-Regime Militar. Dirigido por Suzana Amaral, o filme é uma obra ao mesmo tempo sensível e fria, conduzindo o espectador pelos labirintos da solidão e da marginalização por meio de uma fotografia crua e intimista. Mais de 40 anos depois, ‘A Hora da Estrela’ permanece um ícone do cinema nacional.  

O longa acompanha a história de Macabéa, uma jovem nordestina ingênua e desprovida de identidade própria, que chega ao Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor após a morte da tia. Logo, ela se envolve com Olímpio, um metalúrgico bruto com delírios de grandeza. Semianalfabeta, Macabéa não se destaca no trabalho nem no apartamento onde vive, sendo facilmente silenciada por Olímpio ou enganada por sua colega Glória. No entanto, sua simplicidade permite que ela encontre prazer nas pequenas coisas da vida, como uma visita ao Jardim Botânico do Rio ou uma consulta com a enigmática Madame Carlota, uma cartomante. 

Marcélia Cartaxo interpreta Macabéa com extrema sensibilidade. Sua personagem é frágil e desajeitada, quase sem voz no mundo que a esmaga. O olhar perdido, os gestos tímidos e a fala monótona constroem uma protagonista que não apenas vive à margem da sociedade, mas parece não perceber sua própria exclusão — ou, talvez, simplesmente não se importe. Sob a direção precisa de Amaral, o universo de Clarice Lispector ganha vida no cinema por meio de uma estética crua e minimalista. A fotografia opaca e os enquadramentos fechados reforçam a sensação de aprisionamento, fazendo com que o espectador sinta o peso da vida de Macabéa.  

José Dumont interpreta Olímpio, conferindo um toque cômico aos seus delírios de grandeza. Tamara Taxman dá vida à devassa e calculista Glória, enquanto Fernanda Montenegro, aclamada como a Primeira Dama do Teatro Nacional, integra o elenco no papel da espirituosa Madame Carlota, uma cafetina aposentada que se tornou cartomante. 

O filme escancara a desigualdade social, o descaso com os migrantes e a desumanização dos pobres nas grandes cidades. O destino de Macabéa, traçado desde o início, não permite mudança nem redenção. Sua “hora da estrela” não é de glória, mas de tragédia. E talvez essa seja a maior força do filme: sua recusa em embelezar a realidade, optando por confrontar o público com a dura verdade de que, para muitos, a vida não passa de um lento e inevitável apagamento.  

Quatro décadas após seu lançamento, ‘A Hora da Estrela’ continua sendo uma obra fundamental do cinema brasileiro, não apenas por sua fidelidade ao espírito da literatura de Clarice Lispector, mas por sua potência estética e crítica. O filme de Suzana Amaral transcende o retrato social de uma nordestina invisibilizada e se transforma em uma profunda reflexão sobre o apagamento do indivíduo na sociedade. A história de Macabéa permanece atual, pois a lógica da exclusão, da desigualdade e da indiferença ainda molda a experiência de milhões de brasileiros.  

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