Apesar de ser uma adaptação não autorizada pela família de Bram Stoker de ‘Drácula’, ‘Nosferatu’ criou uma mitologia própria que transformou o cenário dos vampiros no cinema para sempre. Como parte do Cinema Expressionista Alemão, o filme dirigido por F.W. Murnau é considerado um dos primeiros exemplares do gênero terror na história. Robert Eggers, o renomado diretor de ‘A Bruxa’ e ‘O Farol’, sempre demonstrou admiração pelo clássico de Murnau e, em 2024, teve a oportunidade de dirigir sua própria releitura da obra.
Na Alemanha do século XIX, Thomas, um corretor recém-casado, vê a chance de quitar suas dívidas ao receber a proposta de vender uma velha ruína para um excêntrico conde de um país distante. Ignorando os protestos de sua esposa, a melancólica Helen, Thomas parte para encontrar o enigmático Conde Orlok, que revela ser um vampiro e um arauto da pestilência. Enquanto o marido enfrenta os terrores da noite, Helen, em estado de sonambulismo, sofre visões perturbadoras envolvendo Orlok, com quem parece compartilhar uma ligação misteriosa e ancestral.
A terceira adaptação de ,’Nosferatu’ oferece uma trama melancólica e carregada de erotismo, mas resgata o terror visceral associado ao personagem, que há mais de um século assombra o cinema. Embora não aborde diretamente as complexas realidades da Alemanha pós-guerra ou a eterna luta entre o bem e o mal, o filme de Eggers amplia os personagens clássicos e os temas explorados em versões anteriores, colocando novamente o desconforto causado pelo monstro em destaque.
A atenção meticulosa aos detalhes e à precisão histórica, característica de Robert Eggers, transporta o espectador para a Alemanha da década de 1830. Figurinos autênticos e uma atmosfera gótica marcante enriquecem a narrativa, com momentos pontuais que homenageiam o clássico de Murnau e seu estilo visual. A caracterização do Conde Orlok, por sua vez, se distancia da imagem glamorosa associada aos vampiros modernos, retornando à ideia de que este morto-vivo se originou na decadente nobreza ocidental. Com cenas em que as cores quentes praticamente desaparecem, ‘Nosferatu’ permanece fiel tanto à estética de Eggers quanto à mitologia do personagem.
O elenco estelar inclui Nicholas Hoult como Thomas, um personagem vulnerável e repleto de desafios, e Lily-Rose Depp como Helen, interpretando com intensidade fisica e mental o papel desafiador de uma dama vitoriana atormentada por uma sombra ancestral. Aaron Taylor-Johnson, Emma Corrin e Willem Dafoe completam o elenco coadjuvante, dando vida a figuras ligadas ao oculto e perseguidas pelo monstro que dá nome ao filme. Bill Skarsgård, por sua vez, interpreta o Conde Orlok em uma performance marcada por efeitos práticos e treinamento físico, conferindo ao personagem uma faceta inédita e profundamente perturbadora, descrita como dotada de um apetite insaciável.
Unindo uma história atemporal à visão de um dos diretores mais celebrados do terror contemporâneo, a nova versão de ‘Nosferatu’ pode não alcançar o status de obra-prima de seus antecessores, mas reúne todos os elementos necessários para encantar – e aterrorizar – uma nova geração. O respeito pelo clássico é evidente, resultando em um filme que celebra o passado ao mesmo tempo em que se reinventa.