O filme musical ‘Emilia Pérez’ iniciou a temporada de premiações como um dos favoritos em diversas categorias da 97ª edição do Academy Awards. No entanto, desde seu lançamento oficial, a produção francesa se revelou uma das mais divisivas dos últimos tempos, além de amplamente criticada. O longa abriu espaço para análises contundentes, expondo a maneira como a indústria cinematográfica pode abordar certas demografias e como temas mais complexos podem ser reduzidos a meros elementos de fundo. 

A trama gira em torno de Rita, uma advogada contratada pelo poderoso narcotraficante Manitas para auxiliá-lo em uma cirurgia de redesignação sexual. Após a transformação, Manitas passa a se chamar Emilia Pérez. Agora, como Emilia, a ex-líder do cartel deseja reencontrar seus filhos e retorna ao México, buscando redimir-se ao ajudar famílias que foram destruídas por suas ações no passado.  

As polêmicas envolvendo ‘Emilia Pérez’ começam já com seu diretor, o francês Jacques Audiard. Em várias entrevistas, ele afirmou que não realizou pesquisas sobre a cultura mexicana, alegando já ter conhecimento suficiente sobre o tema. Além disso, optou por filmar o longa na Europa em vez do México, o que gerou críticas. Em declarações mais recentes, Audiard afirmou que o espanhol é um idioma de “países emergentes, imigrantes e subdesenvolvidos”. A reação negativa foi imediata, e suas tentativas de justificar a fala não amenizaram a controvérsia. A falta de interesse na cultura mexicana e a perpetuação de estereótipos foram justificadas por ele como parte da estética operística que buscava homenagear. Já sua declaração sobre a língua espanhola foi considerada por muitos não um erro de interpretação, mas um reflexo da arrogância do cineasta. 

Embora seja visto por parte da indústria hollywoodiana como um retrato mítico do México e uma das melhores produções de 2024, o filme gerou repúdio entre cineastas e atores mexicanos. Isso resultou em uma onda de apoio à única outra produção latina na corrida pelo Oscar: ‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles.  

A construção do enredo e a transformação de Emilia também foram alvo de duras críticas. A decisão de humanizar e endeusar uma figura responsável por inúmeros crimes e mortes, com uma mudança de perspectiva repentina, foi considerada superficial e sem a profundidade necessária. O filme apaga as responsabilidades e consequências das ações da protagonista, retratando o narcotráfico como um sistema dominado por uma única figura, em vez de abordá-lo como uma rede complexa e intrincada.  

Outros aspectos criticados incluem as músicas pouco inspiradas, traduções feitas por inteligência artificial e um elenco majoritariamente composto por atrizes norte-americanas. O filme gerou questionamentos entre os fãs das demais produções indicadas, que se perguntam como um musical tecnicamente inferior poderia vencer ‘Wicked’ na categoria de “Melhor Musical” ou como uma história genuinamente latino-americana, como ‘Ainda Estou Aqui’, perderia para uma obra recheada de estereótipos e rejeitada pelo próprio México.  

O que consolidou a polêmica em torno de ‘Emilia Pérez’ foi a própria protagonista, Karla Sofía Gascón. 

Embora o longa de Audiard mereça muitas das críticas recebidas, a indicação da atriz trans Karla Sofía Gascón ao Oscar de Melhor Atriz representou um feito histórico, tornando-a a primeira mulher trans a concorrer na categoria.  

Às vésperas do lançamento de ‘Emilia Pérez’ no Brasil, Gascón concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, na qual acusou a equipe de Fernanda Torres e de ‘Ainda Estou Aqui’ de tentar prejudicar sua campanha ao Oscar. A declaração ganhou repercussão internacional, gerando controvérsia e indignação entre brasileiros e apoiadores do filme baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva.  

Horas depois, antigos posts da atriz na rede social X (antigo Twitter) vieram à tona, redescobertos pela jornalista canadense Sarah Hagi. Em publicações polêmicas, Gascón fez comentários ofensivos contra diversas minorias, o Islã, o cristianismo, a morte de George Flyod e o movimento Black Lives Matter. Além disso, ironizou figuras históricas, como Hitler, e fez declarações consideradas racistas. Entre os alvos de suas críticas estava a própria Academia de Hollywood e suas políticas de diversidade. Em um dos posts mais controversos, Gascón chamou o Oscar de 2021 de “Festival Afro-Coreano”, referindo-se às vitórias de Daniel Kaluuya e Youn Yuh-jung nas categorias de atuação coadjuvante.  

Após a repercussão negativa, a atriz desativou suas redes sociais e tentou se defender, alegando que algumas declarações eram falsas e que havia mudado suas opiniões ao longo dos anos. No entanto, a produtora do filme, a Netflix, rapidamente cortou laços com Gascón, retirando seu nome da campanha ao Oscar. A tentativa da atriz de justificar seus posicionamentos foi vista por muitos como uma mudança conveniente de postura em um curto período de tempo.  

Apesar de acumular 13 indicações ao Oscar, cuja cerimônia ocorrerá em 2 de março, a popularidade de ‘Emilia Pérez’ caiu drasticamente. A combinação de um roteiro medíocre com sucessivas controvérsias transformou a produção de Jacques Audiard no grande vilão da temporada de premiações.  

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