Durante décadas, as telenovelas da Rede Globo foram referência em qualidade narrativa e criatividade, oferecendo entretenimento para as famílias brasileiras e apresentando personagens memoráveis em tramas que exploravam diversas camadas sociais. Seguindo a tendência de revisitar grandes sucessos do passado, a emissora decidiu produzir um remake de um de seus folhetins mais icônicos: “Vale Tudo”, agora sob a direção de Manuela Dias, promete traçar o futuro das novelas brasileiras, para o bem ou para o mal. A versão original, criada por Gilberto Braga, fez história ao retratar um Brasil em plena redemocratização, conquistando tanto a crítica quanto o público.

“Vale Tudo” conta a história de Raquel e Maria de Fátima Accioly, mãe e filha com visões opostas sobre a vida. Raquel, humilde e trabalhadora, vive em Foz do Iguaçu, enquanto Maria de Fátima, ambiciosa e inconformada com a pobreza, vende o único bem da família — a casa herdada do avô — e foge para o Rio de Janeiro em busca de riqueza e status. Acreditando que tudo não passa de um engano, Raquel segue para a capital fluminense para encontrar a filha. No Rio, ambas se deparam com diferentes facetas da sociedade carioca, interagindo com figuras que mudarão suas vidas e ampliarão seus horizontes. Entre essas pessoas está a poderosa família Roitman, comandada com mão de ferro por Odete Roitman, uma empresária implacável e elitista.

A novela original explorava a instabilidade política e econômica do Brasil sob o governo de José Sarney, período marcado pelo retorno da democracia, desemprego crescente, inflação galopante e o caldeirão cultural que a Nova República reservava para o país. Dentro desse cenário, a trama girava em torno da busca incessante por ascensão social e financeira, seja para conquistar uma fortuna ou aumentar as já existentes. Além disso, “Vale Tudo” abordava temas como as diferentes facetas do vício, o elitismo, homofobia, racismo e a corrupção moral, sempre sob um viés cauteloso, garantindo que os arcos relevantes não fossem censurados por descrições drásticas. Apesar da presença de estereótipos e representações claraemente datadas, os personagens se tornaram icônicos, refletindo tanto o subúrbio quanto a elite carioca, com protagonistas e coadjuvantes extremamente carismáticos .

A trilha sonora também desempenhou um papel fundamental na construção da identidade da novela, com a música “Brasil”, interpretada por Gal Costa, sintetizando as contradições éticas e culturais do país. O verso “mostra a tua cara” ressoava como um chamado à transparência e à reflexão sobre a realidade nacional .

A trama apresenta um embate moral entre Raquel, que se torna uma empreendedora de sucesso sem abrir mão de sua honestidade e seus valores, e Maria de Fátima – apelidada pelo público de “Vadia de Fátima”- que busca riqueza a qualquer custo, traindo e manipulando sem escrúpulos. Regina Duarte -em um de seus papéis mais memoraveis – e Glória Pires deram vida a essas personagens icônicas, em um elenco que também contou com Natália Timberg, Renata Sorrah, Cássio Gabus Mendes, Cássia Kis, Lilia Cabral, Maria Gladys e Antônio Fagundes, entre outros grandes nomes da televisão brasileira da época e que dominariam as telas da Globo nas décadas que se seguiram.

Um dos aspectos mais memoráveis da novela foi sua icônica vilã, Odete Roitman, interpretada magistralmente por Beatriz Segall, que confere à viúva tanto fatalidade quanto vulnerabilidade. A personagem, uma das antagonistas mais marcantes da teledramaturgia nacional, representava a elite brasileira no período pós-ditadura: fria, calculista e movida por um profundo desprezo pelo próprio país. Odete só aparece na trama após cerca de trinta capítulos, mas sua presença é sentida desde o início, reforçando o impacto de uma personagem bem construída. As vesperas de sua chegada, todos os personagens perdem o rumo com o anuncio que Roitman estava voltando para o Brasil

A personagem se tornou icone não só por suas manipulações, já que o mistério “Quem Matou Odete Roitman?” tornou-se um dos maiores fenômenos das telenovelas brasileiras. Na véspera de Natal de 1988, quando a novela já entrava em sua reta final, a vilã foi assassinada com três tiros no peito, desencadeando uma onda de especulações de quem teria sido o responsável pelo crime, até nos bastidores das ultimas semanas . O suspense manteve o público intrigado até o último capítulo, quando o assassino foi finalmente revelado, quebrando recordes de audiência e consolidando “Vale Tudo” como um marco na TV.

O remake, previsto para estrear em 31 março de 2025, já gera expectativas e divisões entre os espectadores. A nova versão terá Taís Araújo e Bella Campos nos papéis de Raquel e Maria de Fátima, enquanto Débora Bloch assumirá o desafio de interpretar Odete Roitman. A Globo busca inovar, seja introduzindo mudanças na narrativa ou se inspirando em séries contemporâneas de sucesso, como “Succession”. O elenco original se divide entre aqueles que questionam a necessidade de um remake – como Maria Gladys  que debochou da iniciativa de Manuela Dias -e os que apoiam a iniciativa. A ‘Raquel’ original, Regina Duarte, afastada da TV desde sua atuação no governo Bolsonaro, desejou sorte a sua substituta, Taís Araújo, reconhecendo a importância da oportunidade e garantindo que Thaís e capaz de viver uma personagem tão carismática.

A relevância das novelas para a identidade cultural brasileira foi destacada pela atriz Fernanda Torres em sua campanha ao Oscar, e “Vale Tudo” é um exemplo emblemático disso. Mesmo após quase quarenta anos de sua estreia, o folhetim permanece um dos maiores sucessos da teledramaturgia nacional, reafirmando que uma história bem contada pode atravessar gerações e se manter viva no imaginário popular, além de servir como um espelho para a sociedade brasileira,  seja ela de 1988 ou de 2025

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