“Você é como a Marilyn, só que melhor.” 

“Não, não. Nunca melhor do que a Marilyn. Nunca”

-Anna Nicole Smith para um Paparazzi;1993

Talvez uma das figuras mais fotografadas e cultuadas da Hollywood clássica, Marilyn Monroe assombra o imaginário coletivo como poucas divas conseguiram. Enquanto nomes de outros ícones do cinema clássico se tornam tópicos de círculos especializados, a imagem de Monroe jamais desapareceu; ao contrário, foi constantemente reelaborada e explorada. Falar de Marilyn é tratar de uma construção cultural que ultrapassou o cinema e se instalou no campo do simbólico — um território onde poucos artistas conseguem permanecer por tanto tempo.

Em uma era em que Hollywood ainda operava sob o rígido sistema de estúdios, Monroe foi moldada como o arquétipo máximo da feminilidade da época: platinada, extremamente sensual, com um semblante construído como ingênuo e “burro”. Filmes como ‘Os Homens Preferem as Loiras‘ e ‘O Pecado Mora ao Lado‘ ajudaram a consolidar essa persona pública. O problema é que, ao reduzi-la a esse estereótipo, ignorava-se aquilo que havia de mais fascinante em sua presença.

Essa dualidade entre Norma Jeane Mortenson e Marilyn Monroe contribuiu decisivamente para sua mitificação. Após um verdadeiro “banho de loja” — prática comum entre estrelas da época — Norma Jeane transformou-se em Marilyn de forma explosiva. Narrativamente, a trajetória da jovem órfã que ascende ao estrelato apenas para ser consumida por ele é poderosa demais para passar despercebida, ecoando uma das histórias mais enraizadas na cultura ocidental: a ascensão fulgurante seguida pela queda trágica. Sua morte precoce, aos 36 anos, reforçou essa dimensão. Assim como James Dean, Ayrton Senna e Diana Spencer, Marilyn não envelheceu aos olhos do público — cristalizando-se em um estado eterno de juventude e beleza.

Além disso, Monroe foi uma figura profundamente moderna. Ainda que frequentemente enquadrada como símbolo sexual, buscava reconhecimento como atriz séria. Sua atuação em “Niagara” e, sobretudo, em ‘Os Desajustados‘ — seu último filme completo — revela uma intérprete sensível, capaz de expressar fragilidade emocional com rara autenticidade. Essa busca por legitimidade artística a aproxima de debates contemporâneos sobre objetificação, autonomia e identidade feminina.

Outro elemento central para sua permanência é sua capacidade de ser reinterpretada por diferentes gerações. A Marilyn dos anos 1950 não é a mesma dos anos 1970, quando foi transformada em ícone pop por Andy Warhol, nem a dos anos 2000, revisitada sob lentes feministas. Sua imagem — reproduzida à exaustão em fotografias, pinturas, filmes e produtos — tornou-se maleável, aberta a novos significados. Madonna buscou replicar sua estética, assim como Margot Robbie e outras personalidades contemporâneas. Em uma das instâncias mais controversas, Kim Kardashian utilizou um de seus vestidos mais icônicos no Met Gala, reacendendo debates sobre preservação histórica e apropriação simbólica.

Marilyn é, ao mesmo tempo, símbolo do glamour e das engrenagens opressivas do sistema de Hollywood. Soma-se a isso o fascínio pelos inúmeros mistérios que cercam sua vida: seus relacionamentos com Joe DiMaggio e Arthur Miller, suas possíveis ligações com John F. Kennedy e Robert F. Kennedy, além das circunstâncias nunca totalmente esclarecidas de sua morte. Em uma cultura obcecada por narrativas completas, Marilyn resiste como uma história fragmentada — e é justamente essa incompletude que a mantém viva.

Há, por fim, algo de profundamente humano em sua figura. Sua insegurança, suas lutas com a saúde mental e sua busca incessante por amor e reconhecimento continuam a ressoar. Assim, a permanência de Marilyn Monroe não se explica apenas por sua beleza ou por sua filmografia, mas pela complexidade de tudo o que representa. Ela é, simultaneamente, criação e criatura, ícone e vítima, fantasia e realidade. Sua imagem não se desgasta porque jamais foi simples — e talvez seja justamente essa impossibilidade de reduzi-la a uma única definição que a torna eterna.

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