Na década de 2010 tivemos uma arrebatadora leva de filmes que revolucionaram o que conhecíamos como horror na mídia. Começando com Sobrenatural (do original Insidious) de 2010, na qual promoveu um novo tipo de experiência para o expectador e alavancou mais ainda a popularidade de James Wan como diretor, na qual fez seu nome pelos próximos anos como uma das maiores mentes por traz do cinema de horror.

James Wan viu uma oportunidade gigantesca para entrelaçar a vida real com o sobrenatural ao se deparar com a história da maior dupla de investigadores paranormais que vigorou nos EUA durante quase 30 anos: Ed e Lorraine Warren. Essa ideia de investir em seus casos não era nova, até porque no ano de 2009 foi produzido um filme com base em uma dessas histórias: Evocando Espíritos (do original The Haunting In Connecticut), na qual é baseado em um dos casos investigado e capitalizado pelo casal em formato de livro. Naquela época a produtora dessa “adaptação”, Gold Circle Films, já tinha mostrado indícios de que estariam dispostos a adaptar mais histórias, porém sem a representação do casal Warren por conta de polêmicas que orbitavam a seu redor. Dito isso, já é de se imaginar que o acordo não foi pra frente e, infelizmente, o roteiro de Invocação do Mal (do original The Conjuring), na qual já rodava na indústria por cerca de 14 anos e a ideia de focar no casal como heróis foi se dissipando no ar. Com muito esforço, Tony DeRosa-Grund (na qual produziu o primeiro rascunho do projeto) se reuniu com os irmãos Hayes e com o produtor Peter Safran, com isso eles fizeram uma pesquisa intensa, junto a entrevistas com a própria Lorraine, para refinar o roteiro e, finalmente, trazer a ideia de Invocação do Mal para as telinhas.

No início da produção, o filme era chamado de “The Warren Files”, baseado no livro homônimo que o casal lançou antes do falecimento de Ed, onde eles narram os casos mais impactantes de suas carreiras. Porém o nome caiu por terra, sendo usado o nome original do projeto como o título oficial do que se tornaria uma das franquias mais lucrativas que a New Line já promoveu nos últimos 15 anos.

O filme de estreia da franquia, Invocação do Mal (2013), foca no caso da família Perron, na qual se mudam para uma fazenda em Harrisville, Rhode Island, com suas cinco filhas. Com o tempo, eles começam a vivenciar eventos paranormais perturbadores, incluindo manifestações de uma presença maligna ligada à antiga proprietária da propriedade, uma bruxa conhecida como Bathsheba Sherman. Em meio ao caos, eles recorrem a igreja católica que busca a ajuda dos Warren para enfrentar essa ameaça.

Em tese, o filme mostra uma visão muito romantizada de quem eram os Warren, até divergindo de forma muito consciente em relação aos fatos e ao caso em si. Os roteiristas e o próprio diretor tomaram certa liberdade criativa para desenvolver a história de forma que fosse realmente assustada e tivesse um início, meio e fim. Em relação ao que já havia sido relatado pelos Warren na realidade, Bathsheba Sherman existiu realmente e, em tese, teria sido uma mulher acusada de satanismo. Ela não era uma bruxa ou nada do gênero, apenas uma mulher acusada no século XIX. Também é necessário frisar que ela era considerada uma presença muito ruim, mas não a única naquele lugar.

Outra coisa que é necessário pontuar é a questão de que a família já residia e convivia com as atividades paranormais por mais ou menos 10 anos, até que se tornam tão intensas que tiveram que recorrer à Igreja Católica. E ai que os Warrens entram na história. Embora seja o caso que abriu portas para a franquia, na realidade nada foi resolvido e a presença do casal de investigadores só conseguiu atrair mais ainda a visão de charlatanismo.

O sucesso extraordinário de Invocação do Mal (2013) transcendeu completamente as expectativas comerciais e críticas de uma indústria que aos trancos e barrancos pedia novamente pela morte do horror como gênero viável. Com um orçamento modesto de apenas $20 milhões, o filme arrecadou impressionantes $320 milhões em bilheterias mundiais, quebrando recordes de forma que nenhum filme de horror havia conseguido anteriormente. A recepção crítica acompanhou o frenesi comercial, com especialistas reconhecendo a destreza técnica de James Wan em construir atmosfera através de movimentos de câmera deliberados e planejamento visual meticuloso, ao invés de recorrer apenas a jump scares baratos. O que Wan havia feito era nada menos que reinventar como o horror deveria soar e parecer para uma nova geração de espectadores, propondo uma volta ao horror psicológico em detrimento do horror visceral que dominava a indústria naquele período. 

Praticamente antes mesmo da tinta secar nos créditos do primeiro filme, a maquinaria de Hollywood já cogitava uma sequência. Em julho de 2013, logo após as sessões de teste positivas, a New Line Cinema reportava que já estava nos primeiros estágios de desenvolvimento com Patrick Wilson e Vera Farmiga contratados para reprisar seus papéis. O desenvolvimento, porém, não seguiu um trajeto linear. Em outubro de 2014, quando James Wan retornou para dirigir a continuação e fazer sua primeira contribuição como escritor da franquia, foi anunciado também que a sequência seria adiada da sua data original em outubro de 2015 para 2016, sem data especificada. Essa decisão gerou especulação considerável na indústria sobre possíveis razões, embora nunca confirmadas oficialmente.

O que estava em desenvolvimento era nada menos que uma verdadeira obra de pesquisa e dedicação. Em março de 2015, James Wan viajou para Londres para visitar os locais reais onde os eventos ocorreram. Não era uma simples leitura de roteiro ou revisão de pesquisa de produção. Em julho de 2015, os atores principais Vera Farmiga e Patrick Wilson visitaram a própria Lorraine Warren no New England Paranormal Research Center em preparação para seus papéis, numa sessão que buscava capturar a autenticidade emocional de seus personagens além das palavras do roteiro. 

A produção foi um esforço monumental de cinemetografia. O filme foi gravado com câmeras Arri Alexa XT e subsequentemente convertido para resolução 4K, refletindo o comprometimento da produção com qualidade técnica. Com um orçamento superior ao primeiro filme, estimado em $40 milhões, e a reputação de Wan já consolidada após o fenômeno de Invocação do Mal, a produção correu com uma confiança que se refletiria em cada quadro da tela. 

Invocação do Mal 2 transporta os Warren da América rural para a Inglaterra urbana de 1977, onde a família Hodgson enfrenta manifestações poltergeist que desafiam toda lógica e compreensão. A narrativa segue a estrutura de investigação paranormal já estabelecida pelo primeiro filme, mas com uma profundidade emocional renovada que explora o casamento Warren sob pressão constante e o peso psicológico de lidar com o sobrenatural como profissão.

Na vida real, o Poltergeist de Enfield começou em agosto de 1977 no endereço em Brimsdown, Enfield, norte de Londres. A mãe solteira Peggy Hodgson e seus quatro filhos, Janet com 11 anos e Margaret com 13 anos sendo as mais afetadas, vivenciaram fenômenos extraordinários que se estenderiam por 18 meses de tormento. Os eventos incluíram móveis deslocando-se sozinhos, incêndios inexplicáveis, levitação documentada e, mais notavelmente, Janet falando com uma voz grave e rouca que se identificava como Bill Wilkins, um antigo morador falecido da propriedade.

O caso atraiu atenção massiva da mídia britânica, com cobertura extensiva do Daily Mail e Daily Mirror. Mais de 30 testemunhas presenciais, incluindo vizinhos, policiais, jornalistas e investigadores paranormais como Maurice Grosse da Society for Psychical Research, testemunharam os fenômenos. A polícia chegou a registrar eventos inexplicáveis, desconcertada diante da impossibilidade de oferecer explicação racional. 

Porém, e aqui reside o grande abismo entre cinema e realidade, o filme de James Wan implementa liberdades criativas significativas que divorciamse completamente da narrativa dos fatos documentados. Enquanto a família Hodgson real enfrentou os fenômenos durante 18 meses, o filme comprime a cronologia e dramatiza a severidade das manifestações para fins narrativos. Mais importante ainda, o papel dos Warren na história real foi substancialmente menor do que retratado na tela. A investigação foi conduzida principalmente por pesquisadores britânicos como Maurice Grosse, e a contribuição americana foi periférica, praticamente uma visita prolongada que adicionou pouco ao resultado final dos eventos. 

O filme também introduz Valak, um demônio central que não figurava no caso real de forma alguma. Embora Valak exista na demonologia histórica, descrito na Chave Menor de Salomão do século XVII como o 62º demônio comandante de trinta legiões infernais, sua forma de freira é inteiramente criação de James Wan. O diretor buscava uma iconografia que desafiasse especificamente a fé de Lorraine Warren, e a imagem de uma freira corrupta representava essa subversão perfeita de simbolismo religioso. A inspiração veio de relatos de Lorraine sobre ter sentido a presença de uma freira espectral em uma igreja assombrada durante a década de 1970, transformado em pedra angular da narrativa do segundo filme. 

Quanto à questão espinhosa da veracidade dos fenômenos em Enfield, o assunto permanece controverso até hoje. Peggy Hodgson e seus filhos insistiram durante anos que a maioria dos eventos realmente ocorreu, embora confessassem que forjaram algumas manifestações para testar os investigadores ou ganhar atenção da mídia. Investigadores céticos, incluindo membros do Committee for Psychical Research e mágicos profissionais como Joe Nickell e Bob Couttie, argumentaram que evidência substancial apontava para fraude deliberada, particularmente envolvendo Janet e Margaret. Contudo, testemunhas respeitadas como Maurice Grosse permaneceram convencidas da autenticidade de muitos eventos até o final de suas vidas.

O lançamento de The Conjuring 2 em 10 de junho de 2016 consolidou James Wan não apenas como diretor competente, mas como arquiteto do horror contemporâneo que definiria uma década inteira. O filme arrecadou $322.8 milhões em bilheterias mundiais, com uma abertura de $40.4 milhões apenas nos EUA e Canadá, estabelecendo recordes para sequências de horror e provando que o público mantinha confiança absoluta na franquia. 

A contribuição técnica de Wan transcende o simples suspense cinematográfico. O diretor emprega uma cinemetografia que privilegia movimentos circulares de câmera, planos sequência prolongados e a construção de tensão através de manipulação espacial em vez de editorialismo frenético que caracterizava filmes de horror de menor qualidade. As cenas se desenrolam com precisão temporal exata: o filme permite que momentos de calma se estendam até o ponto em que a audiência relaxa e baixa suas defesas psicológicas antes de estruturar o terror de forma devastadora. Esta técnica, que poderíamos chamar de “negatividade audiovisual”, funciona infinitamente mais efetivamente que jump scares convencionais. 

A recepção crítica reconheceu The Conjuring 2 como uma sequência rara que não apenas iguala seu predecessora, mas em certos aspectos a transcende completamente. No Rotten Tomatoes o filme alcançou um índice de aprovação de 80% com base em 254 avaliações, com nota média de 6,70/10. Críticos elogiaram a recreação meticulosa da década de 1970 no filme. Cada detalhe de moda, móvel, paisagismo urbano e estética visual contribui para uma imersão temporal que valida os eventos dramatizados de forma que espectadores acreditam estar verdadeiramente na Londres de 1977. 

A decisão de Wan de focar menos em CGI grotesco e mais em presença, som e composição de quadro demonstrou compreensão sofisticada do que verdadeiramente assusta audiências humanas. Uma cena particularmente antológica envolve Valak circulando Lorraine dentro das paredes de um quarto, uma sequência que combina claustrofobia psicológica com presença sobrenatural de forma que raros filmes do gênero alcançam. Outra momento memorável ocorre com um controle remoto de televisão e uma sequência envolvendo Elvis Presley que constrói empatia genuína pelos personagens antes de pivotar para o horror absoluto. 

O roteiro, escrito por múltiplas mãos (Carey e Chad Hayes, David Leslie Johnson, e James Wan), diferencia-se por sua dedicação quase obsessiva à humanidade dos personagens. Longe de serem meros receptáculos de sustos, Ed e Lorraine Warren são retratados como um casal genuinamente afetado por aquilo que investigam, enfrentando o colapso emocional sob pressão constante e incompreensível. Vera Farmiga entrega uma performance que captura o conflito entre fé profissional e dúvida existencial, enquanto a jovem atriz Madison Wolfe como Janet Hodgson transmite terror genuíno através de nuances faciais que revelam possessão e desespero.

O filme também estabeleceu a estrutura para um universo cinematográfico expandido que surpreenderia a própria New Line Cinema. Valak provou ser um vilão tão icônico que justificou não apenas um filme próprio com A Freira em 2018, mas também uma sequência em 2023. Este sucesso encorajou a produtora a expandir o Conjuring Universe com os filmes de Annabelle e múltiplas outras produções, transformando a franquia em um fenômeno cultural comparable ao universo compartilhado Marvel, porém completamente dedicado ao horror sobrenatural. 

Em 2016, The Conjuring 2 não apenas ofereceu entretenimento cinematográfico competente. O filme estabeleceu novos paradigmas para como o horror poderia alcançar legitimidade crítica e êxito comercial simultâneo de forma que nenhuma sequência de terror havia conseguido anteriormente. The Conjuring 2 provou que a segunda metade da década de 2010 continuaria a produzir horror de qualidade extraordinária, mantendo acesa a revolução que James Wan havia aceso em 2013 e expandindo-a para dimensões que nem mesmo ele poderia ter previsto.