Hayao Miyazaki é amplamente reconhecido como um dos maiores animadores e cineastas da história do cinema moderno. Nascido em 5 de janeiro de 1941, em Tóquio, no Japão, cresceu em um país marcado pelas consequências da Segunda Guerra Mundial e por profundas transformações sociais e culturais. Ao mesmo tempo em que testemunhava o potencial cultural que o Japão viria a alcançar, também ajudaria a moldá-lo à sua própria maneira. Esses elementos históricos, aliados à sua sensibilidade artística e ao fascínio pela natureza, pela infância e pela imaginação, influenciaram profundamente sua obra. Ao longo de décadas de trabalho, consolidou-se como um dos principais responsáveis pela projeção mundial da animação japonesa e pela valorização da cultura oriental no cenário global.
Miyazaki nasceu em uma família ligada à indústria aeronáutica. Seu pai, Katsuji Miyazaki, dirigia uma empresa que produzia peças para aviões militares durante a guerra. Essa proximidade despertou no jovem Miyazaki um interesse duradouro pela aviação e pelo voo — temas recorrentes em seus filmes. Além disso, sua vivência em um contexto de guerra contribuiu para que se tornasse um crítico ávido dos conflitos, tanto dentro quanto fora das telas.
Durante sua infância, o Japão ainda enfrentava as consequências da guerra, e o jovem Miyazaki testemunhou tanto a reconstrução do país quanto as mudanças sociais decorrentes desse período. Paralelamente, desenvolveu um gosto intenso pelo desenho, pela literatura e pelos mangás. Inspirado por artistas como Osamu Tezuka — considerado o “pai do mangá moderno” — passou a se interessar seriamente pela narrativa visual. Estudou na Universidade Gakushuin, onde se formou em Ciências Políticas e Economia em 1963. Embora sua formação acadêmica não estivesse diretamente ligada à arte, sua paixão pela animação continuou a crescer.
Logo após concluir seus estudos, Miyazaki ingressou na indústria de animação japonesa, trabalhando no estúdio Toei Animation. Nesse período, começou como animador iniciante, participando de produções que o ajudaram a desenvolver o estilo narrativo e visual que, posteriormente, se tornaria um marco. Entre as décadas de 1960 e o início dos anos 1970, trabalhou em diversos projetos importantes da animação japonesa, colaborando com profissionais que também se tornariam grandes nomes da indústria, como Isao Takahata — parceria fundamental ao longo de sua carreira.
O verdadeiro salto em sua carreira ocorreu na década de 1980. Em 1984, dirigiu Nausicaä of the Valley of the Wind, baseado em um mangá criado por ele mesmo. A obra apresenta uma narrativa complexa sobre ecologia, guerra e a relação entre humanidade e natureza. O sucesso do filme levou à fundação, em 1985, do lendário Studio Ghibli, criado por Miyazaki, Takahata e o produtor Toshio Suzuki. O estúdio rapidamente se tornou um dos mais respeitados do mundo, muitas vezes sendo comparado — e, por vezes, considerado superior — à Disney. Diferentemente de muitas produções comerciais da época, seus filmes valorizam histórias mais profundas, personagens complexos e uma estética artesanal que privilegia o desenho tradicional, em vez da simples comercialização de produtos licenciados.
Entre seus filmes mais famosos está A Viagem de Chihiro, que acompanha uma garota perdida em um mundo espiritual repleto de criaturas enigmáticas e perigosas. Outro destaque é Meu Amigo Totoro, uma obra delicada sobre infância e imaginação, que se tornou símbolo do Studio Ghibli. Totoro, a criatura gigante que acompanha as protagonistas, tornou-se um dos personagens mais queridos e reconhecíveis do cinema de animação. Miyazaki também dirigiu sucessos como Princesa Mononoke, que aborda o conflito entre natureza e industrialização, e O Castelo Animado, uma fantasia romântica marcada por temas como guerra e identidade. Seus filmes costumam mesclar crítica social, elementos mágicos e protagonistas femininas fortes, consolidando seu estilo único e seu impacto duradouro no cinema global. Seu filme mais recente, O Menino e a Garça, contempla a própria mortalidade em uma produção profundamente sensível.
O reconhecimento global de Miyazaki atingiu um novo patamar com A Viagem de Chihiro. O filme tornou-se um fenômeno cultural, conquistando diversos prêmios internacionais, incluindo o Oscar de Melhor Filme de Animação em 2003 — sendo a primeira produção japonesa a vencer na categoria. Miyazaki repetiu o feito em 2023, com a vitória de O Menino e a Garça. Em ambas as ocasiões, o diretor não compareceu à cerimônia para receber o prêmio.
Chihiro tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do Japão e consolidou Miyazaki como um autor cinematográfico de alcance global. Sua narrativa, que mistura elementos do folclore japonês, espiritualidade e crítica social, apresentou ao público ocidental aspectos profundos da cultura japonesa. Seu estilo visual também se destaca: cenários detalhados, paisagens exuberantes e criaturas fantásticas inspiradas na mitologia, na natureza e nos sonhos. O cuidado artesanal com a animação tradicional contribui para uma experiência profundamente imersiva, reafirmando-o como um dos grandes defensores dessa técnica em um mundo cada vez mais dominado pela computação gráfica.

A importância de Miyazaki para a cultura oriental — especialmente para o Japão — é imensa. Ele ajudou a elevar a animação japonesa ao status de arte respeitada internacionalmente. Antes disso, muitos filmes animados eram vistos apenas como entretenimento infantil. Por meio de suas histórias, também difundiu elementos essenciais da cultura japonesa, como tradições espirituais, mitologia xintoísta, respeito à natureza e valores comunitários. Filmes como A Viagem de Chihiro apresentam espíritos, deuses e rituais que fazem parte do imaginário cultural japonês. Além disso, sua obra contribuiu para fortalecer o chamado soft power cultural do Japão, ampliando globalmente o interesse por mangás, animes e outras expressões artísticas japonesas.
Mesmo após anunciar diversas vezes sua aposentadoria, Miyazaki continuou trabalhando e retornando à direção de novos projetos. Seu legado é comparável ao de grandes autores do cinema mundial. Hoje, o Studio Ghibli é considerado uma verdadeira instituição cultural no Japão, e os filmes de Miyazaki seguem influenciando animadores, cineastas e artistas em todo o mundo. Mais do que um animador, Hayao Miyazaki é um contador de histórias que transformou a animação em poesia visual. Sua obra permanece como um dos maiores patrimônios da cultura oriental contemporânea e um testemunho da capacidade da arte de conectar diferentes culturas por meio da imaginação.

