No mundo de ‘Harry Potter’, unicórnios são descritos como os seres mais puros do universo mágico; em ‘Fantasia’, da Disney, acompanham a celebração de Baco em um ambiente greco-romano; e é quase certo que aparecerão em algum filme da ‘Barbie’ como um companheiro desastrado em uma aventura encantada. No imaginário popular, são criaturas associadas à delicadeza e à pureza. No entanto, o filme “A Morte do Unicórnio’ reinventa essa figura em uma mistura criativa e caótica de fantasia e horror.

Elliot viaja com sua filha, a rebelde adolescente Ridley, até a casa da família Leopold, onde seu chefe, gravemente doente, pretende tratar de negócios. No caminho, Elliot acidentalmente atropela um filhote de unicórnio e o coloca no carro, torcendo para que ninguém descubra — o que, obviamente, não acontece. Quando os Leopold tomam conhecimento das propriedades curativas do sangue da criatura, organizam uma verdadeira caçada. Mas ninguém ali imagina que estão prestes a se tornar alvo dos pais do unicórnio morto, sedentos por vingança.

O roteiro, assinado por Alex Scharfman, combina ironia mordaz com diálogos carregados de tensão moral, criando uma atmosfera que remete a ‘Saltburn‘, embora ainda mais caótica. A relação entre pai e filha funciona como um microcosmo de uma trama mais ampla, em que os valores humanos são colocados em xeque diante da ganância — e onde até mesmo o extraordinário é reduzido a uma patente em potencial. O humor absurdo, com diferentes partes do unicórnio sendo consumidas ou inaladas, traz à tela um surrealismo grotesco e provocativo.

Visualmente, “A Morte do Unicórnio’ aposta em uma estética de realismo mágico contemporâneo, tratando o fantástico com naturalidade sem jamais banalizá-lo. A fotografia é atmosférica e, por vezes, opressiva, com paletas frias e composições que acentuam o estranhamento do mundo ao redor. O corpo em decomposição do unicórnio, mantido em segredo, torna-se não apenas catalisador da narrativa, mas também símbolo físico e fétido da corrupção do sagrado. Sua aparência subverte expectativas: não é a criatura bela e etérea de outras mídias, mas algo pré-histórico, monstruoso, evocando imagens mais próximas de bestas mitológicas do que de um animal encantado.

Jenna Ortega, conhecida por seus papéis expressivos em obras de terror e suspense, entrega uma adolescente moralmente ambígua, com traços semelhantes à sua personagem em *Os Fantasmas Ainda se Divertem*. Paul Rudd interpreta um pai carismático e aparentemente afetuoso, cuja ingenuidade colide com a brutalidade dos acontecimentos. Richard E. Grant, Téa Leoni e Will Poulter completam o elenco como os membros da esnobe e excêntrica família Leopold.

‘A Morte do Unicórnio’ reúne todos os elementos para se firmar como uma das obras mais ousadas e caóticas da A24, flertando com o realismo fantástico ao mesmo tempo em que mergulha na crítica social, científica e moral. Sua proposta audaciosa — misturar o imaginário fantástico à análise ética e ao grotesco — ecoa obras como ‘Aniquilação’ e os tons sombrios de ‘Hereditário’, mas com personalidade própria, marcada por simbolismo e tensão ética. Ainda que associemos o unicórnio à pureza, este filme ousa explorar sua mitologia sob um prisma perverso e fascinante.

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