O número 13 significa muitas coisas. Para Taylor Swift e seus fãs, é um número de sorte; para o Brasil, remete a Lula, Dilma e ao Partido dos Trabalhadores; para os supersticiosos, representa má sorte e mau agouro. E, para Ryan Murphy, talvez seja a oportunidade perfeita de revisitar os clássicos de American Horror Story.

Depois de um hiato de quase dois anos, American Horror Story retorna com sua 13ª temporada, simplesmente intitulada “AHS: 13”. É inegável que a qualidade da série caiu exponencialmente desde o final de “Double Feature”, mas ainda existe algo capaz de atrair a atenção para esse mundo maravilhosamente macabro e amaldiçoado. Em muitos aspectos, a temporada segue o mesmo caminho de “Apocalypse”, fazendo com que diferentes núcleos e personagens da franquia colidam em uma única narrativa. Em clima de celebração, o produtor reúne antigos colaboradores em uma temporada repleta de referências aos anos anteriores, personagens conhecidos e alguns sustos pelo caminho.

Ben DeSoto sofre de triscaidecafobia, uma fobia irracional do número 13. Depois de sobreviver a um trágico acidente, ele é contratado para cuidar do decrépito Sr. Nas, um milionário doente que vive no 13º andar do misterioso edifício Apollyon. Quando acontecimentos estranhos começam a cercar Nas, Ben passa a investigar as ligações entre o homem, o prédio e o número 13, enquanto a outra cuidadora do milionário, a ácida Constance Langdon, parece envolvida em movimentações ainda mais obscuras. Paralelamente, a Suprema Bruxa Cordelia Goode sente a aproximação de um acontecimento que poderá levar ela e suas alunas à destruição. Rostos conhecidos reaparecem, mortos retornam à vida e, como de costume, nem tudo é o que parece.

O primeiro ponto a ser mencionado ao discutir esta temporada é a duração de seus episódios principais. Em seu auge, American Horror Story apresentava episódios que chegavam a aproximadamente uma hora de duração, muitas vezes superando a marca de tempo. Aqui, entretanto, a narrativa se torna cada vez mais acelerada, deixando pouco espaço para o desenvolvimento dos novos personagens e para que seus conflitos sejam devidamente explorados.

As diversas histórias existentes na temporada, mergulhadas em ocultismo e sobrenatural, possuem uma conexão difícil de acompanhar, dando a impressão de que diferentes roteiros foram escritos individualmente, sem o devido cuidado com a narrativa como um todo. Murphy afirma que seu desejo era criar uma experiência semelhante à de “Vingadores: Ultimato”, mas o resultado se aproxima mais de uma vitrine na qual personagens queridos aparecem brevemente, entregam suas frases de efeito e desaparecem, salvo algumas exceções. Existe uma história potencialmente interessante envolvendo Satanás como peça central, capaz de responder a antigas perguntas e, ao mesmo tempo, criar novos mistérios que não fazem sentido. O problema é que essa ideia parece precisar de mais desenvolvimento antes de funcionar plenamente dentro da temporada.

Embora não alcance o glamour opulento que a série proporcionou em “Hotel” nem a inteligência narrativa de “Asylum”, “AHS: 13” ainda mantém uma atmosfera interessante depois de tantos anos. O apartamento claustrofóbico, repleto de simbolismos escondidos e palco de grande parte das cenas, remete aos labirintos do edifício Dakota, eternizado em “O Bebê de Rosemary”, além de evocar imagens de palanques malditos e portas para o inferno. A série também continua experimentando com ângulos de câmera intensos, capazes de deformar os personagens e criar uma estética particularmente interessante ao reencontrar esses atores em seus papéis conhecidos.

Jessica Lange retorna, pela primeira vez desde 2018, à série que a popularizou durante a década de 2010. A atriz interpreta novamente Constance, Judy, Fiona Goode e Elsa Mars — esta última com direito a um número musical. Apesar de seu tempo limitado em algumas das participações, Lange se mostra deliciosamente condescendente e maldosa, ainda que a qualidade do texto tenha sofrido uma queda livre desde sua última passagem pelo set. O mesmo pode ser dito de Sarah Paulson, que retorna como Cordelia e em outras aparições especiais de personagens do passado. O calibre de Paulson, entretanto, não é desperdiçado. O mesmo não pode ser dito sobre todo o restante do elenco. Nomes como Evan Peters, Angela Bassett, Emma Roberts e Gabourey Sidibe, que foram grandes destaques em diferentes momentos da série, retornam com entusiasmo e divertimento, mas encontram pouco material com que trabalhar apesar de tudo. O novo elenco conta com nomes como Joey Pollari, Paul Anthony Kelly, Avantika e o celebrado diretor John Waters, que ajudam a renovar a composição da temporada, ainda que nem sempre recebam espaço suficiente para desenvolver seus personagens.

Apesar de tudo isso, é necessário assistir a esse tipo de produção de coração aberto. Não podemos esperar que American Horror Story repita o auge que um dia alcançou; é preciso apreciá-la pela perspectiva “camp” que a temporada parece abraçar. Se um dia a série foi comparada a “Alem da Imaginação”, hoje ela se aproxima mais de “Goosebumps”. Tentar racionalizar demais suas escolhas pode fazer com que a experiência perca justamente aquilo que parece ser seu principal objetivo: celebrar o universo criado por Ryan Murphy e abraçar o absurdo. Afinal, onde mais poderíamos encontrar Jessica Lange interpretando uma cantora alemã, servindo a Satanás e enviando mulheres infames como Eva Braun e Wallis Simpson  para o inferno em um sacrifício completamente sem lógica? Talvez seja justamente nessa falta de lógica que “AHS: 13” encontre sua razão de existir.

No fim, “AHS: 13” funciona melhor como uma celebração nostálgica do que como uma temporada capaz de recuperar a força narrativa que consagrou a franquia. Entre referências, reencontros e excessos deliberados, Ryan Murphy parece mais interessado em revisitar os fantasmas de sua própria criação do que em construir algo verdadeiramente novo. O resultado é irregular, por vezes frustrante.

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