No início da internet, histórias de terror conhecidas como ‘creepypastas’ conquistaram enorme popularidade, transformando personagens como o Slender Man em verdadeiros fenômenos da cultura digital. Entre essas narrativas, uma das mais famosas é ‘The Backrooms’, criada por Kane Parsons, que imagina uma dimensão infinita composta por corredores e salas vazias, envoltas por uma atmosfera opressiva e claustrofóbica. Em 2026, Parsons retorna a esse universo em sua estreia na direção de longas-metragens, adaptando sua própria websérie para uma produção da A24 repleta de suspense e horror psicológico.
Clark é o gerente de uma loja de móveis e vive uma rotina marcada pela insatisfação pessoal e profissional. Durante a organização do sótão do estabelecimento, ele descobre uma dimensão que parece existir à margem da realidade: um espaço infinito, silencioso e perturbador, onde algo misterioso o observa das sombras. À medida que Clark se torna cada vez mais distante e obcecado por essa descoberta, Mary, sua terapeuta, decide investigar por conta própria os segredos daquele lugar.
Diferentemente de adaptações de outras creepypastas, como ‘Slender Man’ e ‘Momo’, ‘Backrooms’ opta por construir uma narrativa original, preservando o mistério que envolve aquele universo assimétrico e incompreensível. A atmosfera criada pelo filme transmite uma constante sensação de vigilância e de insignificância diante do desconhecido, evocando um horror cósmico de inspiração lovecraftiana. A revelação gradual das criaturas que habitam esse espaço remete à construção clássica do suspense presente em obras como ‘Alien – O Oitavo Passageiro’ e ‘A Coisa’. O longa ainda valoriza os efeitos práticos em detrimento do excesso de computação gráfica, enquanto a utilização pontual da estética found footage amplia o desconforto e a imersão do espectador. Embora os cenários possam parecer visualmente monótonos à primeira vista, sua composição minimalista reforça a sensação de estar diante de um ambiente que desafia as leis da realidade, potencializando o terror psicológico.
Quando o roteiro se afasta desse universo tão singular, entretanto, a narrativa perde parte de sua força. Existe uma tentativa de abordar temas como culpa, consequências e o enfrentamento dos próprios traumas, mas essas reflexões acabam diluídas em uma trama que carece da profundidade encontrada em alguns dos melhores filmes de terror contemporâneos. Ainda assim, a maneira como esses conflitos eventualmente se fundem ao espaço dos ‘Backrooms’ cria imagens perturbadoras e amplia a ideia de assimilação entre o psicológico e o sobrenatural.
O elenco enxuto reúne atores consagrados e nomes promissores. Chiwetel Ejiofor interpreta Clark, afastando-se de seus papéis dramáticos mais convencionais e demonstrando mais uma vez sua versatilidade. Já Renate Reinsve, destaque de ‘O Valor Sentimental’, entrega uma Mary atormentada, carregando grande parte do peso emocional da narrativa. O filme ainda conta com participações de Mark Duplass, Finn Bennett e Lusitania Maxwell.
Com sua mistura de horror existencial, mistério e estranheza visual, ‘Backrooms’ frequentemente se assemelha a um episódio moderno de ‘Além da Imaginação‘, em que o desconhecido importa mais do que as respostas. Mesmo apresentando algumas fragilidades em seu desenvolvimento dramático, a obra de Kane Parsons demonstra criatividade ao expandir um dos maiores fenômenos do terror digital para o cinema.

