Comandada por Carlo Ancelotti, a Seleção Brasileira se prepara para a Copa do Mundo de 2026 em mais uma tentativa de conquistar a tão sonhada sexta estrela, unindo um país dividido, mas igualmente tomado pela expectativa de uma nova conquista. Em clima de Mundial, a Netflix lançou a minissérie “Brasil 70: A Saga do Tri”, produção que revisita a histórica campanha da seleção de 1970 e explora os bastidores políticos que envolveram aquele que é considerado por muitos o maior time de futebol de todos os tempos. Em meio a um dos períodos mais controversos da história brasileira, a equipe conquistou o primeiro tricampeonato mundial da história do esporte.

Brasil, 1970. O país se prepara para a Copa do Mundo do México com um elenco repleto de estrelas: Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho, Gérson e tantos outros craques partem em busca de um feito histórico. Ao mesmo tempo, o governo do general Emílio Garrastazu Médici vive seu período de maior endurecimento político. Em meio à turbulenta troca de comando técnico — marcada pela saída polêmica de João Saldanha e a chegada de Zagallo — e pelo fantasma das derrotas nas Copas anteriores, a seleção inicia sua caminhada rumo à consagração.

Com estética documental, utilizando imagens de arquivo e cuidadosas recriações históricas, a minissérie acompanha a trajetória da equipe e estabelece um interessante paralelo entre as seleções de 1970 e 2026, destacando a força do trabalho coletivo que levou o Brasil até a final, em Guadalajara. Embora Pelé seja, sem dúvida, o grande protagonista da narrativa, outros personagens ganham espaço através de seus dramas pessoais: Tostão enfrenta uma delicada lesão no olho em seu último Mundial; Félix, estigmatizado pela fama de “frangueiro” e assombrado pelo Maracanazo , carrega a enorme pressão de defender a meta brasileira; e Zagallo precisa lidar com a desconfiança daqueles que questionavam sua capacidade de comandar a equipe. A série também ressalta a dimensão popular do futebol, ilustrada pela história de um casal que vende seu precioso Fusca para acompanhar todos os jogos da seleção.

A relação entre a Seleção Brasileira e o Regime Militar é um dos aspectos mais interessantes da produção. Com a figura de Médici sempre presente, a narrativa revisita esse capítulo da história nacional sob uma perspectiva multifacetada, mostrando tanto os opositores do governo quanto aqueles que acabaram se tornando “garotos-propaganda” do regime. A utilização da conquista esportiva como instrumento de propaganda política é abordada em diversos momentos, enquanto a montagem intercala a emoção das partidas com as cenas de repressão que marcavam o cotidiano do país.

No elenco, Rodrigo Santoro entrega uma interpretação intensa do combativo e politizado João Saldanha, funcionando como um excelente contraponto ao pragmático e supersticioso Zagallo, vivido com eficiência por Bruno Mazzeo. Já a escalação de jovens talentos, como Lucas Agrícola no papel de Pelé e Ravel Andrade interpretando Tostão, confere autenticidade e vigor à produção, recriando a aura quase mítica daqueles jogadores que entraram para a história do futebol.

Mais do que uma simples reconstrução esportiva, “Brasil 70: A Saga do Tri” é uma reflexão sobre a maneira como o futebol se entrelaça com a identidade brasileira e com os acontecimentos políticos do país. Em um momento em que a Seleção busca novamente recuperar seu protagonismo mundial, a série serve como um lembrete de que grandes conquistas vão além do talento individual: são fruto de união, planejamento e superação. Ao revisitar o passado, a produção da Netflix não apenas celebra a geração de 1970, mas também reacende a esperança de que o Brasil possa, mais uma vez, escrever um novo capítulo glorioso em sua história.