Assim como Tom em busca de seu Jerry e Frajola atrás de seu Piu-Piu, poucos personagens animados são tão memoráveis quanto Coiote e Papa-Léguas. Desde sua concepção, a dupla está presa a uma perseguição eterna que atravessa gerações e permanece como um dos grandes exemplos da cultura pop. Muito disso se deve às inúmeras desventuras vividas pelo Coiote, que, além de sua própria arrogância, precisa lidar constantemente com os produtos defeituosos da Companhia Acme. Mas e se a Acme, uma das principais indústrias do universo dos Looney Tunes, fosse responsabilizada pelos danos morais e emocionais causados ao personagem? Essa é a proposta de Coyote vs Acme, filme que finalmente chega às telas após anos de incertezas.

Wile E. Coyote continua perseguindo o Papa-Léguas, mas parece que o universo conspira contra ele. Seus milhões de planos mirabolantes acabam saindo pela culatra — metafórica e literalmente —, enquanto os produtos da Acme transformam cada tentativa de captura em mais um desastre. Certo dia, porém, Wile E. descobre que seu caso não é isolado. Após entrar em contato com o advogado Kevin Avery, os dois decidem negociar com a empresa e, caso não cheguem a um acordo, levar o gigantesco conglomerado aos tribunais. A tarefa, entretanto, está longe de ser fácil.

Antes de falar sobre o filme em si, é necessário conhecer um pouco de sua trajetória fora das telas. Após a conclusão das filmagens, Coyote vs. Acme estava pronto para ser lançado em 2023. No entanto, David Zaslav, então CEO (diretor-executivo) da Warner Bros. Discovery, decidiu manter o longa “trancado no cofre” da empresa como parte de uma estratégia de abatimento fiscal. Além de Coyote vs. Acme, os filmes Batgirl e Scooby! Um Natal Mal-Assombrado também foram abandonados pela companhia. A decisão provocou enorme repercussão no mundo do entretenimento, levando fãs e profissionais diretamente envolvidos nas produções a se manifestarem pela renegociação e pela possibilidade de lançamento dos projetos. Depois de muita incerteza, Coyote vs. Acme finalmente saiu dos cofres da Warner Bros. Discovery e, após ainda mais obstáculos, conseguiu distribuição.

Mas será que o filme consegue se sustentar para além de todo o hype?

Diferentemente de muitos projetos que tentaram adaptar ou modernizar os Looney Tunes, Coyote vs. Acme mantém a mesma energia anárquica característica do Coiote, colocando-a em forte contraste com um universo jurídico relativamente realista. Apesar de decadente e repleto de homenagens aos clássicos da franquia, esse mundo mantém os pés no chão, equilibrando-se com as inúmeras artimanhas e trapalhadas de Wile E. Coyote. De maneira semelhante a Uma Cilada para Roger Rabbit, que utilizava a presença dos desenhos animados em seu universo como uma alegoria para questões relacionadas ao racismo na década de 1940, o filme utiliza os Looney Tunes inseridos no mundo real para discutir a relação do indivíduo com as grandes empresas de consumo. O principal tema é a ética corrompida pela ganância corporativa, apresentada em um roteiro assinado por James Gunn e marcado por reviravoltas e surpresas. O longa também funciona como uma homenagem aos tradicionais filmes de tribunal, nos quais a busca por justiça se torna o centro da narrativa, enquanto forças ocultas nos bastidores — algumas bastante familiares, velhinho — tentam interferir no caso.

A presença dos personagens mais lunáticos da animação é incorporada de maneira divertida e, de certa forma, surpreendentemente orgânica. É como se o mundo criado por Uma Cilada para Roger Rabbit tivesse continuado a evoluir até chegar ao universo apresentado aqui. O filme incorpora a fisicalidade típica dos desenhos de maneira bastante coesa, utilizando efeitos práticos que tornam a violência cartunesca ainda mais divertida quando ela interage com o mundo físico. Ao mesmo tempo, a animação combina técnicas tradicionais com elementos em 3D, e suas interações com o ambiente real ampliam a sensação de que esses personagens realmente pertencem àquele universo. Nesse aspecto, o resultado é mais convincente do que o visto, por exemplo, no filme Tom & Jerry, de 2021, no qual os personagens muitas vezes pareciam não interagir de maneira convincente com os humanos. A participação do Papa-Léguas é um exemplo perfeito disso: seu design icônico permanece intacto, mas a velocidade de sua corrida provoca efeitos físicos no ambiente ao redor, deixando apenas seu característico “Beep Beep” para trás.

Will Forte é o principal personagem humano do filme, que mistura animação e live-action. Como um advogado obrigado a lidar com o caos provocado por Wile E. Coyote, ele começa a história enxergando o animal como um problema, mas aos poucos desenvolve afeição pelo predador alucinado e passa a acreditar em sua causa. As interações entre os dois são divertidas, mas também conseguem ser suficientemente críveis para sustentar a relação construída ao longo da narrativa. John Cena, por sua vez, interpreta o advogado da Companhia Acme e, além de representar uma força de oposição importante, acrescenta uma dose de absurdo à história ao contracenar com personagens como Piu-Piu. É uma combinação improvável que funciona justamente por abraçar o ridículo inerente à proposta.

Mas o verdadeiro protagonista é o Coiote. Protagonista de uma das perseguições mais queridas e duradouras da história da animação, Wile E. Coyote ganha aqui diferentes facetas, explorando tanto seu lado cômico quanto sua relação complicada com o Papa-Léguas. E é justamente aí que reside uma das maiores qualidades do filme: existe espaço para que o personagem cresça, amadureça e compreenda melhor a si mesmo, mas sem jamais deixar de ser o Coiote que conhecemos. Ele pode mudar ao longo da jornada, mas sua essência permanece intacta.

No fim, Coyote vs. Acme entende que não é necessário transformar um personagem clássico em algo completamente diferente para atualizá-lo. O filme encontra seu humor justamente no contraste entre o absurdo dos Looney Tunes e a seriedade do mundo real, criando uma aventura que funciona tanto como comédia quanto como uma espécie de carta de amor aos personagens que atravessaram gerações. Por trás das explosões, perseguições e produtos defeituosos da Acme, existe uma história sobre responsabilidade, ganância e justiça, mas, acima de tudo, sobre um personagem que passou décadas sendo condenado a perder e finalmente recebe a oportunidade de lutar por si mesmo. Talvez essa seja a maior vitória do Coiote: pela primeira vez, sua perseguição não é pelo Papa-Léguas, mas por aquilo que sempre lhe faltou — uma chance de vencer.

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