Da mente de Julian Fellowes, o drama histórico “Downton Abbey” narra a história da família Crawley, aristocratas britânicos que precisam se adaptar às mudanças que o século XX impõe à sua classe, ao mesmo tempo em que conhecemos os funcionários que servem à propriedade com dedicação. Ao longo de seis temporadas, acompanhamos os altos e baixos da família em meio a acontecimentos decisivos das primeiras décadas do século passado. Dois filmes deram sequência à narrativa, funcionando como capítulos finais, e o mais recente — “Grand Finale” — encerra de forma agridoce a história que acompanhamos desde 2011.

Estamos em 1930. Tudo parece em ordem até que o divórcio de Lady Mary Talbot é anunciado, transformando a herdeira de Downton Abbey em uma pária social, rejeitada por boa parte da elite britânica. Enquanto Mary precisa se adaptar à nova vida, seu tio americano chega trazendo notícias alarmantes: a fortuna da mãe está à beira da ruína, o que ameaça o futuro da propriedade. Nos andares de baixo, rostos familiares se despedem, cedendo espaço ao novo — e a nostalgia toma conta de todos, que relembram os dias gloriosos da Abadia.

De forma semelhante ao primeiro filme desta trilogia, “Grand Finale” se assemelha mais a um episódio especial da série do que a um filme tradicional, retomando tópicos já abordados e resgatando o humor afiado da produção original — desde as dúvidas vitorianas sobre o conceito de “fim de semana” até as piadas sobre mordomos com ideais socialistas. É uma obra feita para os fãs: cada detalhe, ainda que imperfeito, busca entregar um desfecho satisfatório para todos os personagens. Cada arco encontra coerência com o que foi construído na série: personagens outrora submissas, como Daisy e Edith, conquistam autonomia; o Conde de Grantham abraça a mudança; e velhos conhecidos, como a indomável Isobel e o fiel Carson, permanecem fiéis à sua essência — e é justamente aí que reside o charme.

Apesar de seu tom novelesco, o filme ganha um ar cinematográfico graças às novas tecnologias de captação de imagem, que tornam os anos 30 mais coloridos e refinados, realçados por figurinos impecáveis e elegantes. A Abadia nunca pareceu tão imponente — e, ao mesmo tempo, tão acolhedora. O condado, por sua vez, nunca pareceu tão próximo do público.

O primeiro grande acontecimento retratado em ‘Downton Abbey’ foi o naufrágio do Titanic; o último, a crise de 1929. Essa escolha empurra a narrativa mais uma vez para um contexto de incerteza, explorando a relação dos Crawley com a riqueza. O glamouroso mundo da elite britânica é retratado como algo do passado, e a necessidade de se modernizar levanta a grande questão do filme: há espaço para Downton Abbey no mundo moderno, quando tudo para o qual foi construída parece se tornar apenas memória? Essa reflexão é reforçada por uma cena silenciosa, carregada de emoção, entrecortada por grandes momentos da série original e por uma trilha sonora poderosa — não apenas os personagens, mas também o público é convidado a refletir sobre o fim de uma era. A presença constante de referências a Noel Coward sublinha as mudanças culturais desde o início da série, adicionando um humor mais ácido à narrativa.

O elenco original retorna, oferecendo a cada personagem um desfecho coerente e emocionalmente satisfatório — um presente para quem acompanhou a saga. É impossível ignorar o cuidado e o carinho dedicados a esse universo por todos os envolvidos. O filme é dedicado à memória de Maggie Smith, eterna intérprete da Condessa Viúva, que faleceu em 2024. Apesar de a personagem já ter morrido no filme anterior, sua presença continua a ser sentida — seja em flashbacks ou em menções afetuosas —, uma homenagem justa aos oito anos que Smith dedicou ao papel.

As portas da Abadia, ao que tudo indica, se fecharam — mas não sem antes oferecer um último e caloroso adeus ao público. “Grand Finale”, mesmo não sendo tão grandioso quanto o título sugere e usando algumas óbvias manipulações emocionais, respeita o mundo criado por Julian Fellowes e entrega uma despedida digna para uma das séries mais queridas da televisão moderna.

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