Após uma série de resultados frustrantes e projetos cancelados, o Universo Cinematográfico da DC será reiniciado sob o comando de James Gunn, responsável pela trilogia Guardiões da Galáxia e por O Esquadrão Suicida. A primeira obra deste novo universo expandido promete reacender o encanto pelos icônicos personagens da DC Comics, começando por Superman, agora sob a direção anárquica e explosiva de Gunn.
Há três anos atuando como o protetor superpoderoso da Terra, Superman enfrenta tanto obstáculos externos quanto dilemas internos, muitos deles orquestrados pelo bilionário megalomaníaco Lex Luthor. Dividido entre sua herança kryptoniana e seu lado humano, o herói precisará encarar mais do que apenas monstros gigantes e robôs assassinos: ele terá de trabalhar ao lado de uma legião de heróis desajustados, um cachorro hiperativo e uma jornalista ambiciosa. Mesmo diante do caos, o Homem de Aço não pretende recuar.

Se Zack Snyder optou por um estilo mais sombrio, com hiper-realismo e alegorias messiânicas, James Gunn segue por um caminho distinto: aposta na cor, no absurdo típico dos quadrinhos e em paralelos contemporâneos com políticas de imigração — especialmente pertinentes no contexto do segundo mandato de Donald Trump. Gunn, conhecido por revitalizar personagens secundários, agora tem a chance de criar sua própria versão do super-herói mais famoso do mundo, bem como de seus aliados e adversários. Apesar do tom mais leve, o filme não hesita em abordar temas densos e relevantes.
Quem espera mais uma história de origem nos moldes das versões estreladas por Christopher Reeve e Henry Cavill pode se decepcionar. O filme mergulha diretamente no cânone já estabelecido do personagem, esperando que o público reconheça e compreenda o herói. Krypton já foi destruído — e isso não será recontado. O longa começa com Clark Kent já inserido na sociedade, tanto em sua vida civil quanto como Superman.

A visão de Gunn adiciona um frescor contemporâneo ao universo do Homem de Aço. O longa inclui a recepção digital ao herói e às suas ações, muitas vezes enxergadas sob o rótulo de “estrangeiro”. O filme não tem receio de posicioná-lo como um imigrante, levantando debates sobre pertencimento, identidade e as diversas formas como o povo de Metrópolis pode reagir às ações e ideais do kryptoniano.
A produção brilha e vacila sob a mesma luz. Se, por um lado, enfrenta dificuldades em desenvolver seus personagens centrais com profundidade, por outro, apresenta uma profusão de figuras secundárias que claramente estão sendo introduzidas para retornarem em futuros projetos — tanto em filmes quanto em séries. Essa multiplicidade de personagens remete ao erro estrutural de Liga da Justiça (2017). A escolha por efeitos visuais angulosos e pouco realistas pode desagradar parte do público, mas também proporciona uma imersão completa a quem aceita a estética proposta.
David Corenswet assume o manto de Superman com mais carisma, humor e humanidade do que as versões anteriores — especialmente a encarnada por Henry Cavill em O Homem de Aço. Rachel Brosnahan dá vida a uma Lois Lane determinada a descobrir a verdade sobre o kryptoniano, mesmo que isso abale sua relação com Clark Kent. Já Nicholas Hoult entrega um Lex Luthor manipulador e carismático, capaz de explodir em fúria quando necessário — talvez a versão mais instigante do vilão até hoje.
Com Superman, James Gunn não apenas reinicia um universo cinematográfico; ele redefine o próprio símbolo do herói para uma nova geração. Fugindo da solenidade pesada de versões anteriores, mas sem abrir mão da complexidade emocional e dos debates sociais, o diretor entrega uma obra que equilibra irreverência e profundidade. Ainda que imperfeito em sua execução, o filme representa uma promessa: a de um novo começo para as adaptações da DC

