Após a recepção morna de ‘A Princesa e o Sapo’, cuja bilheteria ficou aquém do esperado para revitalizar plenamente o gênero dos contos de fadas, John Lasseter e os demais executivos dos Estúdios Disney precisaram reformular a campanha de divulgação da 50ª animação da casa: uma adaptação da história de Rapunzel. A solução encontrada foi simples, porém eficaz — redirecionar o foco do marketing da princesa protagonista para seu companheiro aventureiro, tornando a narrativa mais atraente tanto para meninos quanto para meninas. Além disso, o título foi alterado de ‘Rapunzel’ para ‘Enrolados’ (‘Tangled’, no original), buscando ampliar o apelo do filme junto a todas as audiências, e não apenas às tradicionalmente associadas às princesas.
Na trama, Rapunzel é uma jovem mantida isolada em uma torre por sua guardiã, Gothel, junto de seus mais de vinte metros de cabelos mágicos e dourados. Às vésperas de seu décimo oitavo aniversário, um ladrão carismático invade seu santuário, dando à jovem a oportunidade perfeita de sair em busca do sonho de ver de perto o festival de lanternas que acontece em um reino vizinho — e que, misteriosamente, ocorre sempre no dia de seu aniversário. Fora de casa pela primeira vez, Rapunzel embarca em uma jornada de descobertas e liberdade, enquanto Gothel, determinada a manter seu controle, parte em busca da filha adotiva com a intenção de aprisioná-la novamente.
Até então, a história da princesa de longas tranças era uma das poucas fábulas clássicas ainda não adaptadas pelo império do entretenimento. Sua inclusão ao panteão das princesas Disney marcou o fim de uma era: o último sopro do espírito dos anos 1990, antes que o estúdio abraçasse narrativas mais modernas, como ‘Frozen’ e ‘Moana’. A construção de uma mitologia simples, porém eficaz, adiciona um toque de magia que respeita a tradição do estúdio de reinventar contos de fadas com liberdade criativa, mas sem perder o encanto. A presença de personagens carismáticos e cenas bem ritmadas tornam a narrativa leve, dinâmica e emocionalmente envolvente.
A versão Disney de Rapunzel também deu origem ao arquétipo da protagonista ‘adorkable’ — adorável e desajeitada — que viria a se repetir ao longo da década seguinte, com diferentes níveis de sucesso. A animação expressiva e a performance vocal de Mandy Moore conferem à princesa uma combinação cativante de força e vulnerabilidade. Flynn Rider, por sua vez, é um herói que foge ao modelo do príncipe clássico: mais próximo do cafajeste de bom coração, à la Han Solo, do que de um galante cavalheiro, ele cresce emocionalmente ao longo do filme. Gothel, com um visual que remete à cantora Cher, surge como uma das últimas grandes vilãs da Disney — uma manipuladora astuta cujas táticas psicológicas podem ser dolorosamente reconhecíveis por crianças que convivem com relações abusivas.
‘Enrolados’ é também o primeiro filme de princesa da Disney feito inteiramente em animação 3D. Seu mundo é estilizado e vibrante, equilibrando realismo e fantasia com brilho visual. O festival das lanternas — palco de uma das sequências mais emocionantes da história do estúdio — é um marco técnico e poético. Os cabelos de Rapunzel, com seus quase vinte metros, representaram um dos maiores desafios tecnológicos do projeto, mas o resultado impressiona até hoje. A trilha sonora, composta por Alan Menken com letras de Glenn Slater, mistura modernidade e tradição com competência: da balada que expressa os sonhos da protagonista à música dos desordeiros que compartilham seus próprios desejos, as canções ajudam a construir um musical vibrante, romântico e bem-humorado.
‘Enrolados’ representa uma transição inteligente entre o legado das animações clássicas da Disney e as exigências de um novo público. Com humor moderno, personagens complexos e um visual deslumbrante, o filme mantém vivo o espírito encantador dos contos de fadas, enquanto prepara o terreno para uma nova fase criativa. Mais do que uma simples reinvenção de Rapunzel, trata-se de uma celebração do poder da liberdade, da busca pela identidade e da capacidade de se reinventar — valores que, ao fim, também dizem muito sobre a própria Disney.

