No universo queer, assumir-se ainda pode representar um enorme desafio. Sem uma rede de apoio adequada, muitos adolescentes enfrentam esse momento com medo, insegurança e solidão. No cinema, as reações — frequentemente negativas — de pais diante dessa revelação funcionam como catalisadoras de narrativas que exploram aceitação, pertencimento e amor próprio. É nesse contexto que ‘I Wish You All the Best’, estrelado por Corey Fogelmanis e Alexandra Daddario, surge como uma oportunidade de revisitar essa vivência sob uma perspectiva mais sensível e acolhedora.
Quando Ben De Backer toma a coragem de se assumir como uma pessoa não-binária para os pais, o resultado é o pior cenário possível: Ben é expulso de casa no meio da noite, sem dinheiro e sem ter para onde ir. Forçado a ligar para a irmã mais velha, com quem não falava há anos, Ben se muda para a casa dela e tenta passar despercebido no último ano do ensino médio, lidando com crises de ansiedade e o trauma da rejeição. No entanto, o plano de invisibilidade vai por água abaixo quando Ben conhece Nathan Allan, um estudante carismático e engraçado que decide se aproximar. O que começa como uma amizade relutante se transforma em um porto seguro, onde Ben finalmente encontra espaço para se curar, se aceitar e descobrir o amor.
Em sua aparente simplicidade, o filme assume um caráter quase didático, especialmente para aqueles que entram em contato com essas experiências pela primeira vez — seja vivenciando-as ou oferecendo apoio. A narrativa utiliza recursos acessíveis, como comparações com figuras públicas e diálogos que explicitam conflitos semânticos comuns no início da jornada identitária. Além disso, há um cuidado evidente em retratar a incerteza que permeia cada etapa do processo de se assumir: longe de ser linear ou idealizada, essa trajetória é marcada por avanços e recuos, onde a ausência de apoio pode transformar dúvidas em crises profundas.
O longa também se destaca por abordar, com sensibilidade — ainda que não sem falhas —, os “primeiros momentos” da experiência queer na adolescência: a descoberta de si, os primeiros vínculos afetivos e as inevitáveis desilusões, sejam elas amorosas ou oriundas de relações de confiança. Há ainda uma abordagem interessante sobre as chamadas “falsas esperanças” de aceitação, bem como sobre o papel fundamental das artes como espaço de refúgio e expressão. Nesse sentido, a relação de Ben com as aulas de artes, conduzidas pela excêntrica Sra. Lyons, reforça a arte como um território de pertencimento. Por outro lado, o filme tropeça ao tentar soar excessivamente contemporâneo, recorrendo a piadas sexuais e referências pop que nem sempre se integram organicamente à narrativa, como menções à trajetória de Demi Lovato ou paralelos com Euphoria.
O elenco é liderado por Corey Fogelmanis, conhecido por seu papel em Girl Meets World e na Trilogia Wishbone de Conan Gray, que entrega uma performance emocionalmente carregada, ainda que, em alguns momentos, resvale em um estilo de atuação mais caricato, possivelmente herdado de sua trajetória em produções voltadas ao público jovem. Seu visual andrógino e olhar melancólico conferem ao personagem um charme delicado e convincente. Alexandra Daddario emociona ao interpretar Hannah, oferecendo uma presença acolhedora e firme, enquanto Cole Sprouse (no papel de Todd) funciona como um alívio cômico eficiente, equilibrando a carga dramática da narrativa.
‘I Wish You All the Best’ não é um filme revolucionário em sua forma, mas encontra sua força na delicadeza com que aborda uma experiência profundamente humana e ainda marcada por estigmas. Ao optar por uma narrativa acessível e emocionalmente honesta, o longa se posiciona como uma ponte entre diferentes públicos: aqueles que vivem essa realidade e aqueles que precisam compreendê-la. Apesar de seus deslizes — sobretudo no excesso de didatismo e em certas tentativas de modernização forçada —, o filme cumpre um papel importante ao reafirmar que identidade é um processo, e que o acolhimento pode ser a diferença entre a ruptura e a reconstrução. Em última instância, trata-se de uma história sobre encontrar um lugar no mundo — e, sobretudo, dentro de si.

